Você não vai acreditar

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Crônica das andanças — 10/02/2026

Mentir é quase um esporte nacional. Não daqueles olímpicos, com medalha e pódio — mas um jogo de várzea, praticado desde cedo, sem juiz nem VAR.

Quem nunca disse que já tinha um compromisso inadiável ao receber um convite pouco animador? Ou que adoraria ir, mas infelizmente não vai dar?

São mentiras pequenas, de bolso. Tropeços de caráter que a gente usa mais para sair de enrascadas do que para ferir alguém.

Há mentiras que machucam — essas são graves, perigosas, merecem reprovação.

E há outras… bem… há outras que são quase traquinagens sociais. E curiosamente, muita gente desse segundo grupo acaba sendo ótima companhia. Divertida. Criativa. Narradora de causos.

É aí que entra o Percival.

Conheci o Percival numa cidade média do interior de Minas Gerais. Tipo de lugar onde todo mundo se conhece — ou acha que conhece — e onde uma boa história corre mais rápido que notícia ruim.

Percival tinha um bordão infalível. Toda conversa começava do mesmo jeito:

— Você não vai acreditar…

E a gente já sabia: vinha mentira da grossa.

Percival começou cedo. Ainda menino. A primeira foi clássica. Não fez a lição de casa e, cobrado pela professora, explicou com seriedade que não havia conseguido porque a avó passara mal e ele precisara acompanhar a mãe até a casa dela.

Passou.

E como toda mentira que passa vira incentivo, Percival foi se aperfeiçoando.

Desenvolveu técnica. Ritmo. Pausa dramática. Detalhe desnecessário — aquele que dá verossimilhança.

Com o tempo, contou tantas histórias que os amigos passaram a pedir:

— Conta uma, Percival.

E ele contava.

A preferida era a origem da casa da família. Um belo sobrado colonial, preservado pelo tempo, desses que parecem ter algo a dizer.

Segundo Percival, o imóvel fora presente do imperador Dom Pedro I a uma antepassada sua. Uma moça de beleza estonteante — DNA que, segundo ele mesmo admitia, não chegara intacto à sua geração. Ela teria sido a grande paixão do imperador.

Não satisfeito, Percival acrescentava que a dita antepassada tivera participação relevantíssima na Independência do Brasil, especialmente no episódio do Grito do Ipiranga. Era quase uma consultora histórica do Império.

A mentira cresceu tanto que, até hoje, o sobrado é conhecido na região como o casarão de Dom Pedro.

Bonito, né?

Inofensivo. Quase poético.

O problema é que nem toda mentira é assim — pueril, fantasiosa, contada em mesa de bar. A história está cheia de mentiras bem menos simpáticas. Mentiras repetidas até virarem verdade. Criadas para beneficiar quem está no poder ou para destruir desafetos. Mentiras que atravessam gerações, mudam rumos, justificam atrocidades.

E hoje, com a internet, elas ganharam velocidade, alcance e anonimato.

As chamadas fake news se espalham por motivos espúrios, atravessam telas e consciências quase incólumes, sem pedido de desculpa, sem consequência. Tais mentiras mudam de roupa, mas nunca mudam de intenção.

No fim das contas, mentir nunca foi tão fácil (para os que mentem) — e nunca foi tão perigoso (para a sociedade).

Confesso que eu nunca fui muito de mentir. Nem mesmo na categoria das mentiras sem maldade. Não por virtude. Mas por limitação. Tenho um problema sério de memória. E isso, para um mentiroso, é profundamente embaraçoso.

Como dizia Mark Twain, escritor americano do século XIX, atento às contradições humanas: “quem diz a verdade não precisa se lembrar de nada”.

E isso, convenhamos, é um alívio.

Ariano Veríssimo.

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