Outro dia me perguntaram qual é a diferença entre viver e apenas passar o tempo.
A pergunta veio dessas que aparecem sem avisar, entre um café e outro, quando a conversa já perdeu a pressa e começa a ficar interessante. Não respondi na hora. Fiquei pensando. A idade ensina que algumas perguntas merecem silêncio antes das palavras.
Depois de muito matutar, cheguei a uma conclusão simples: a diferença está nos sonhos. Não na idade. Não no dinheiro. Não no endereço onde a pessoa mora. Nos sonhos.
Já conheci gente de vinte anos que parecia ter encerrado a vida antes mesmo de começar. E já encontrei senhores de cabelos brancos fazendo planos para os próximos dez anos como quem organiza uma viagem para a semana seguinte.
O corpo envelhece para todo mundo. Os sonhos, não. Por pensar assim eu aprendi a desconfiar daquela conversa de que sonhar é coisa de criança.
Criança sonha naturalmente. Quer ser astronauta, jogador de futebol, cantora, cientista, piloto de avião ou descobridora de mundos escondidos. O jovem também sonha. Acredita que tudo ainda está por ser conquistado.
Mas acontece uma coisa curiosa no meio do caminho. Muita gente vai trocando os sonhos pelas desculpas. Primeiro diz que não tem tempo. Depois diz que não tem dinheiro. Mais tarde afirma que não tem idade. Quando percebe, já não fala mais sobre o que pretende construir. Fala apenas sobre o que não pode fazer.
E assim os dias começam a se parecer uns com os outros.
Segunda-feira.
Terça-feira.
Quarta-feira.
Mais uma semana.
Mais um mês.
Mais um ano.
A vida continua andando, mas a pessoa parou faz tempo.
É claro que sonhar não significa viver no mundo da lua. Não estou falando daqueles castelos construídos no ar, que nunca encontram o chão. Sonho de verdade não é fuga da realidade. É direção. É aquilo que faz alguém acordar pela manhã sabendo para onde deseja caminhar.
Aliás, o maior engano é imaginar que sonho e realidade sejam adversários. Nunca foram. As maiores transformações da humanidade começaram justamente quando alguém ousou imaginar uma realidade diferente daquela que existia. Se ninguém tivesse sonhado, talvez ainda estivéssemos escondidos nas cavernas, assustados com trovões e sombras projetadas nas paredes.
O impossível é um sujeito curioso. Vive mudando de endereço. Aquilo que parecia impossível para uma geração costuma virar rotina para a seguinte.
Lembrei disso por causa de um menino da roça que conheci há muitos anos. Na época, era apenas um garoto magro, desses que passam o dia correndo pelo terreiro e ajudando a família no que aparece. Morava numa propriedade arrendada. A casa era simples. A terra não era deles. O dinheiro era contado. Mas o menino carregava uma mania: gostava de falar sobre a fazenda que teria quando crescesse. Não um sítio. Não uma chácara. Mas uma fazenda. Grande. Enorme. Daquelas que os olhos quase não alcançam o fim.
As pessoas riam. Algumas por brincadeira. Outras por pena. Diziam que ele sonhava alto demais. Que aquilo não era para gente da condição dele. Que a vida real era outra.
Mas o menino continuava sonhando. E, mais importante que isso, continuava trabalhando. O pai, homem sábio e visionário, insistiu nos estudos. Foi o primeiro da família a conquistar um diploma. Aprendeu técnicas novas. Buscou conhecimento. Aplicou o que aprendia. A produtividade aumentou. Vieram os primeiros resultados. Depois, a oportunidade de comprar a terra onde antes era apenas arrendatário. Mais tarde, um pedaço vizinho. Depois outro. E outro.
Anos se passaram. Hoje, aquele menino é um respeitado empresário do agronegócio. Possui terras que ultrapassam, em muito, aquilo que um dia imaginou olhando para o horizonte da infância. Gera empregos. Produz riqueza. Preserva grande parte da vegetação da região. Ajuda a movimentar a economia de cidades inteiras.
E toda vez que lembro da sua história, penso nas pessoas que diziam que aquele sonho era impossível. Talvez o erro delas não estivesse em avaliar o tamanho do sonho. Talvez estivesse em avaliar o tamanho do sonhador. Porque ninguém consegue medir até onde uma pessoa pode chegar quando encontra algo que lhe dá propósito.
Sonhos não garantem resultados. Mas a ausência deles quase sempre garante a estagnação. Quem sonha pode fracassar. Pode errar. Pode precisar recomeçar muitas vezes. Mas continua caminhando. Quem deixa de sonhar corre um risco maior. O de transformar a própria vida numa sala de espera.
Por isso, desconfio de quem diz que já realizou tudo o que tinha para realizar. Enquanto houver estrada, sempre haverá um horizonte. Enquanto houver amanhã, sempre haverá espaço para um novo projeto, uma nova descoberta, um novo começo. Afinal, a juventude não mora na certidão de nascimento. Mora naquele canto da alma que ainda é capaz de olhar para o futuro e dizer:
— E se eu tentasse?
Porque quem deixa de sonhar envelhece duas vezes. Primeiro na esperança. Depois no corpo.
Ariano Veríssimo.