Há coisas que a vida só explica quando a gente se afasta do asfalto. Parece que as lições aprendidas com as pessoas simples são mais profundas do que aquelas vindas de doutores renomados ou de cursos caros... sem falar da pregação de “influencers” e “coaches” que invadiram o mundo — como somos especialistas em copiar o que não presta, eles se proliferaram por estas bandas. Já tenho ressalva em relação a eles só pelo uso desses inglesismos que tentam aumentar a sua importância.
Um ocorrido comigo há alguns anos ilustra bem o que disse acima. No agreste — esse Brasil de areia quente, cabras magras e sabedoria grande — aprendi que existe uma diferença enorme entre conhecimento e sabedoria. Grandes tratados já foram feitos sobre este tema, colocando em mundos bem distantes conceitos que – se a gente for parar para pensar – são simples de serem entendidos.
Conhecimento se adquire com livro, curso, diploma. Sabedoria vem do chão onde a gente pisa: da criação dos pais, das conversas demoradas, das broncas justas, dos silêncios que ensinam mais do que muita aula.
Foi numa dessas voltas pelo interior deste país maravilhoso que conheci seo Pereira — um cabreiro magro de corpo, mas gordo de alma.
Criava suas cabras como quem cria filhos: cada uma com nome, história e implicância particular. E, sem nunca ter pisado numa universidade, tinha uma consciência ecológica que faria muito doutor ruborizar.
Dizia sempre que a gente não tem a terra — a gente pertence a ela.
Lideranças mundiais se reúnem em grandes convenções para pouco produzir em relação a este tema, justamente porque este simples ensinamento, essa visão de mundo simplória, daqueles que sabem o que estão dizendo e vivem de acordo com tais preceitos, se perdeu na ganância e nesse desejo infantil de ter sempre mais, sabe-se lá para quê.
“Quem se acha dono do mundo”, dizia, “é porque ainda não aprendeu a ser dono de si.”
Mas o ensinamento maior veio numa tarde em que comentamos sobre um grande agropecuarista da região — homem rico, cheio de fazendas, tratores e vontades.
Tentou comprar as terras de seo Pereira de tudo quanto era jeito. E como não conseguiu, começou a ameaçar atrapalhar a vida dele.
Eu, meio preocupado, comentei:
— O homem é poderoso, seo Pereira… melhor o senhor ceder, hein!
Ele riu. Riu daquele jeito de quem já entendeu a vida faz tempo.
— Ele não é poderoso, Ariano. Ele está poderoso.
— Ser poderoso é outra coisa. Ser poderoso é viver em paz com o que conquistou, mesmo que seja pouco. É dormir tranquilo. É não precisar humilhar ninguém. É não sentir fome do que é dos outros. Já estar poderoso… isso é só acúmulo. É o sujeito se iludir achando que pode tudo, quando, na verdade, é a vida quem manda em nós.
Depois olhou pro chão, chutou uma pedrinha e completou:
— Um dia, Ariano, todo mundo deixa de estar. A riqueza, o cargo, o prestígio… tudo isso é vento. Se o cabra não constrói a própria essência, acaba ruindo por dentro, mesmo cercado de ouro por fora.
Fiquei com aquela frase atravessada no pensamento, como quem carrega uma revelação simples e profunda ao mesmo tempo. O agreste me ensinou muita coisa. Mas nenhuma tão importante quanto isso: o que somos, permanece. O que estamos, passa. Ali aprendi que quem sabe ser, não se perde no que está. O agreste me ensinou que a riqueza verdadeira não se guarda em cofre e que a essência é o único patrimônio que não desvaloriza.
E talvez seja por isso que gosto tanto de andar por essas estradas poeirentas… Porque é nelas que encontro gente que é, não gente que apenas está. Infelizmente, quem dita as cartas hoje não são os poderosos, são apenas os que estão no poder... E, enquanto se acham donos do mundo, o mundo cada vez mais deixa de ser o lugar ideal para a gente viver.
Ariano Veríssimo.