Quão séria é a vida?

Foto da crônica Quão séria é a vida?

Crônica das andanças — 10/03/2026 (17)

Outro dia tropecei numa frase de Oscar Wilde que me deixou pensando. Ele dizia que “a vida é importante demais para ser levada a sério”.

Confesso que na primeira leitura achei que era mais uma dessas elegâncias inglesas — bonitas no papel, mas que às vezes não sobrevivem a uma segunda-feira de manhã. Mas depois fiquei observando as pessoas ao redor. E comecei a achar que o sujeito talvez soubesse o que estava dizendo.

Outro dia mesmo presenciei uma pequena aula prática disso.

Um conhecido meu derrubou uma xícara inteira de café sobre a própria camisa logo antes de uma reunião importante. Daquelas cenas em que o universo parece ter decidido colaborar com o constrangimento humano.

Ele olhou para a mancha, olhou para a mesa… e começou a rir.

Disse apenas: “Pronto. Agora a reunião já começou interessante.”

A sala inteira relaxou. A reunião seguiu. E, curiosamente, deu tudo certo.

Fiquei pensando que talvez exista aí uma sabedoria discreta: certas tragédias da vida simplesmente não resistem a uma boa gargalhada.

Conheci gente que realmente parece acreditar nisso. Gente que leva a vida com certa leveza. Não aquela irresponsabilidade de quem não paga as contas — mas a leveza de quem entende que nem tudo precisa virar um drama grego.

Essas pessoas erram, claro. Mas erram sem transformar cada tropeço numa tragédia shakespeariana. Tomam um café, dão uma risada e seguem andando.

Agora… também já vi o outro lado. Gente que leva a vida séria demais.

Esses vivem permanentemente em estado de final de campeonato. Cada pequena contrariedade vira um apocalipse pessoal. Se o trânsito para, é o fim do mundo.

Se o chefe reclama, é uma conspiração universal. Se o time perde, a semana inteira fica comprometida. Vivem como se Deus tivesse colocado um fiscal particular dentro da cabeça deles. Assim, não há como se livrar do estresse que gruda na nuca como encosto encomendado.

E o curioso é que essas pessoas quase nunca estão lutando contra grandes tragédias. Estão brigando com coisas pequenas: a fila do banco, o café que veio frio, o e-mail que demorou dez minutos a mais para chegar. Vão transformando miudezas em terremotos emocionais — e, quando percebem, já passaram o dia inteiro defendendo o mundo de perigos que só existiam dentro da própria cabeça.

E existe ainda um terceiro grupo — talvez o mais curioso. São os defensores radicais da frase de Oscar Wilde.

Esses decidiram que, já que a vida não deve ser levada a sério, então o melhor é não levar nada a sério. Promessas viram sugestões. Compromissos viram hipóteses. E responsabilidade vira uma palavra meio antiquada.

Conheci um sujeito assim que dizia viver “filosoficamente”.

Traduzindo: nunca chegava no horário, nunca terminava nada e sempre tinha uma explicação espiritualmente sofisticada para isso.

Confesso que desconfio um pouco dessa interpretação. Porque, se a vida é importante demais para ser levada a sério… ela também é importante demais para ser levada levianamente.

Talvez por isso eu tenha simpatia por um conselho antigo de Buda. Ele falava do “caminho do meio”.

Nem a tensão permanente de quem vive com o coração em estado de emergência. Nem a despreocupação absoluta de quem transforma tudo em brincadeira. Um certo equilíbrio: levar a vida com responsabilidade, mas sem perder o humor.

Afinal, no fim das contas, Wilde talvez estivesse apenas nos lembrando de uma coisa simples.

A vida é séria demais para ser vivida sem leveza.

Ariano Veríssimo.

Compartilhe esta crônica:

Enviar pelo WhatsApp