Eu gosto de esporte.
Gosto de olhar. Praticar já é outra história.
Sempre me impressionaram esses atletas de alta performance. Gente que dedica a vida inteira — corpo, rotina, silêncio, renúncia — por segundos. Às vezes por um centímetro. Às vezes por nada. Treinam anos para um instante que, quando chega, já passou. Para muitos, a glória é estar lá. O brasileiro tem um pouco de dificuldade de aceitar isso. Vice-campeão por aqui é considerado o primeiro perdedor. Uma insensatez.
Nunca fui do time dos atletas que se dedicam com afinco para melhorar suas marcas a cada dia. Minhas caminhadas, por exemplo, não nasceram de nenhuma epifania esportiva. Vieram mesmo foi de uma receita médica. Caminho porque preciso. Não porque sonho com pódio. Mas caminho pensando. E pensar, para mim, sempre foi um bom exercício.
Esses atletas ensinam muito. Mesmo sem saber. Principalmente quando perdem — o que, convenhamos, acontece com quase todos. Porque campeão mesmo é exceção. O resto é gente acordando cedo, insistindo, acreditando, errando, tentando de novo.
Poderia falar de muitos brasileiros que nos deram orgulho. Pelé, Senna, Maria Esther, Guga, Adhemar Ferreira, Marta, Hortência… nomes grandes, desses que não cabem em frase curta. Mas hoje não. Hoje quero contar outra história. Uma daquelas que merecem ser repetidas como causo antigo, passado de boca em boca, sem pressa, sem pressa nenhuma. Porque histórias assim não passam. Ficam.
Arthur Ashe foi um desses casos.
Grande nas quadras, maior ainda fora delas. No auge, foi o melhor do mundo. Ganhou torneios, ouviu aplausos, levantou taças. Depois, a vida resolveu testar o saque. Uma doença grave, dessas que chegam sem pedir licença, fruto de uma transfusão de sangue, numa época em que ninguém imaginava direito o tamanho do problema. Mais uma vítima da Aids, doença que judiou muito da gente.
Já bastante debilitado (perto de sua morte, em 1993), o tenista recebeu uma carta de uma fã inconformada. Ela lhe fez uma pergunta que muita gente faria — e faz: por que Deus teria escolhido ele para sofrer daquele jeito?
Arthur Ashe poderia ter ignorado. Poderia ter respondido com raiva. Preferiu responder com calma.
Contou que, muitos anos antes, cinquenta milhões de crianças começaram a jogar tênis. Poucas aprenderam de verdade. Menos ainda viraram profissionais. Um punhado chegou aos grandes torneios. Menos ainda às finais. E só alguns — muito poucos — venceram Wimbledon. Ele era um deles.
E então disse algo que desarma qualquer discurso bonito: no dia em que venceu, com o troféu na mão, nunca lhe passou pela cabeça perguntar a Deus “por que eu?”. Por que agora, então, faria essa pergunta?
A resposta veio simples, quase como quem conversa à mesa. E ele ainda elencou na sua argumentação uma sequência de verdades que precisam ser ditas, repetidas e passadas à frente, como uma lição de vida:
— A felicidade deixa a gente doce;
os julgamentos nos deixam fortes;
a dor nos faz humanos;
as falhas ensinam humildade;
e o sucesso, quando aparece, faz a gente brilhar;
mas só a fé mantém a gente de pé.
Terminei minha caminhada pensando nisso. Sem medalha. Sem aplauso. Mas com a sensação de que certas histórias realmente precisam continuar sendo contadas. Não para explicar a vida — isso ninguém consegue — mas para lembrar que talvez a pergunta mais honesta não seja “por que comigo?”, e sim: “o que eu faço, agora, com isso?”. O direcionamento a “MEU DEUS” é opcional e depende da fé de cada um.
Precisamos valorizar aquilo que realmente importa. A vida de todos nós tem altos e baixos e, na sua imperfeição, se a gente apreciar e viver intensamente tudo o que nos acontece, certamente seremos mais felizes.
Ariano Veríssimo.