Sempre gostei da matemática. Principalmente depois que parei de estudar. Quando a gente não precisa mais fazer prova, começa a enxergar certa beleza em coisas que, na escola, pareciam ter sido inventadas exclusivamente para diminuir nossa autoestima.
A matemática tem muitas especialidades.
Tem a aritmética, que cuida dos números; a geometria, que mede o espaço; a álgebra, que troca números por letras só para dificultar um pouco... e como dificulta! A estatística, que consegue explicar por que você perdeu dinheiro mesmo quando estava convencido de que as chances estavam a seu favor; e a matemática financeira, que tem o dom extraordinário de fazer uma dívida pequena ficar grande sem que ninguém perceba exatamente quando aconteceu.
Mas recentemente descobri um ramo novo. A Matemática Suprema. Imagino que tenha sido criada para explicar essa tal realidade quântica, onde as coisas nem sempre são aquilo que leigos como nós imaginamos que sejam.
Na física quântica, dizem que uma coisa pode estar em dois estados ao mesmo tempo. Na Matemática Suprema também. A diferença é que, na física, observar pode alterar o resultado. Na Suprema, às vezes o problema começa justamente quando alguém resolve observar.
Vou tentar explicar.
Na matemática simples, se A e B são diferentes, A menos B não pode dar zero. Até eu entendo.
Na Matemática Suprema é um pouco mais complicado. Se A e B são diferentes, você até poderia sair à procura de um número diferente de zero. O problema é que, para procurar, corre o risco de descobrir que o resultado é zero.
E, se para investigar o diferente de zero você precisava de uma equação que não tinha, talvez nem pudesse ter começado a fazer a conta. Mesmo que tivessem garantido que o zero não era o resultado.
Se você não entendeu, não se preocupe. Eu também demorei. Então, resolvi trazer o problema para uma área na qual tenho mais conhecimento: geladeira.
Imagine que desapareça um pudim lá de casa.
Minha mãe me avisa:
— Também percebi... e seu irmão disse que não comeu o pudim.
— A senhora perguntou para ele?
— Sim, já perguntei. Disse que não foi ele.
— Então vou procurar quem foi.
— Não pode.
— Como não posso?
— Porque você pode acabar descobrindo que foi o seu irmão.
— Mas ele não disse que não foi?
— Disse.
— Então, não vou chegar nele.
— Mas não pode procurar.
Parei. Aquilo começava a exigir de mim conhecimentos que iam muito além da matemática.
Se eu procurasse e encontrasse outra pessoa, minha mãe estaria certa. Se procurasse e chegasse ao meu irmão, descobriria que ela estava errada — e que talvez tivesse sido ingênua ao acreditar nele sem investigar. Mas eu não podia procurar porque existia a possibilidade de chegar justamente a quem tinha garantido que não era.
Não entendi nada. Ainda pensei em perguntar como ela podia ter tanto receio de que eu chegasse ao meu irmão se acreditava que não tinha sido ele. Disse simplesmente que não tinha sido ele e ponto.
Minha mãe não é cega... Meu irmão é um exemplo na família, um dos mais sérios de todos nós... E boa parte da família acreditaria sempre nele, mesmo que aparecesse com os lábios borrados de açúcar. Mas insisti. A verdade acima de tudo, aprendi desde pequeno. Não ia abandonar agora o que sempre acreditei sem a menor evidência de que todos estavam certos. Resolvi investigar. Se não era ele, não havia risco algum para a paz familiar em desvendar quem estaria por trás da mordida indevida no pudim.
Mas sabe o pior?
Não é que descobri que era mesmo o meu irmão, o comilão!
Agora, boa parte da minha família parece estar contra mim. O bom senso prescreveu... ao sabor das delícias de um pudim.
Ariano Veríssimo.