Conheço gente que nunca está satisfeita com a própria vida.
Pode ganhar aumento, trocar de carro, viajar nas férias — ainda assim encontra motivo para reclamar. Se chove, é porque atrapalha. Se faz sol, é porque incomoda. Se a vida anda, anda devagar demais. Se corre, corre fora do rumo.
É gente que vive mais ocupada em olhar para o quintal do vizinho do que em cuidar do próprio pedaço de chão. E, nesse exercício permanente de comparação, acaba perdendo o foco do que construiu — quando construiu alguma coisa. Muitas vezes, nem sobra tempo para criar algo que realmente valha a pena. São aqueles que choram sempre de barriga cheia. Reclamam não por falta, mas por costume. E, além disso, quanto mais olham para o que os outros têm, menos conseguem desfrutar do que já alcançaram.
O problema não é desejar mais. Sonhar é coisa boa. Mantém a gente ativo. O problema é viver numa eterna insatisfação, como quem nunca consegue pegar um passarinho sequer da revoada porque passa o tempo todo olhando para o céu errado.
Foi pensando nisso que me lembrei de Abedias.
Conheci Abedias no banco de trás de um carro, desses aplicativos que a gente pega sem esperar muita conversa. Mas com ele foi diferente. Abedias é daqueles sujeitos com quem é impossível parar de falar. Prosa da boa. Das poucas vezes em que a gente torce para o trânsito de São Paulo piorar ainda mais, só para a conversa não acabar tão cedo.
Abedias tem 78 anos. Veio de Reriutuba, pertinho de Sobral, no interior do Ceará — uma cidadezinha que hoje conta com cerca de 18 mil habitantes e que, quando ele saiu de lá, era quase só mato. Chegou em São Paulo em 1965, sem instrução alguma, trazendo na mala mais coragem do que certezas.
Fez o Mobral já adulto, realidade de muitos daquela época. Aprendeu a ler depois de grande, quando a vida já tinha cobrado seus pedágios. Trabalhou no que apareceu. Fez de tudo um pouco, até descobrir que tinha vocação para a direção. Dirigir virou profissão, e profissão virou vida. Foram mais de 50 anos ao volante: perua escolar, táxi, carro próprio. Hoje, já aposentado, continua trabalhando — não por necessidade, mas para não ficar parado em casa, esperando o tempo passar.
Abedias chegou a São Paulo no início da ditadura. Tudo o encantava — até os tanques na rua, ele confessa, sem perceber ainda a enrascada em que o país estava metido. A vida, aos poucos, foi lhe explicando as coisas, do jeito dela: sem cartilha, sem discurso, sem manual. A melhor professora que existe para quem se predispõe a vivê-la na plenitude.
Casou-se. Teve filhos. E tinha um sonho só — pequeno, mas grande o suficiente para ocupar uma vida inteira: que seus filhos não passassem pelo que ele passou.
Conseguiu.
Hoje, fala deles com um orgulho que não cabe no retrovisor. Dois filhos formados, químicos, bem arrumados na vida. Quando fala, não se exibe. Apenas constata. Como quem olha para uma obra pronta e silenciosamente diz: valeu a pena. Cada momento de sua vida dedicada a construir o que ele arquitetou com sua companheira, ao embalar os meninos ainda pequenos.
Quantos Abedias existem por aí? Homens e mulheres que não viveram o próprio sonho, mas foram o chão firme para o sonho dos filhos. Gente que não apareceu nas manchetes, não acumulou fortuna, não virou exemplo em palestra motivacional — mas construiu o essencial. O país se fez no suor de quem fez o que precisava ser feito. E ainda temos muito chão pela frente. Se quisermos e estivermos focados, como seu Abedias.
Enquanto isso, há tantos outros que tiveram quase tudo e ainda assim vivem reclamando. Não sonham, apenas se comparam. Não constroem, apenas cobram. Vivem o pesadelo permanente de olhar por cima do muro, achando que a vida do outro é sempre melhor. E é aí que mora a tristeza.
Talvez esteja aí a diferença entre os vencedores silenciosos e os derrotados barulhentos. Uns cuidaram do que estava ao alcance das mãos. Outros passaram a vida inteira olhando para longe — e esqueceram de viver o que estava perto.
Abedias não reclama. Conta. E quem sabe escutar, aprende.
Ariano Veríssimo.