Conheci Dona Isolda e seo Adolpho no interior do Paraná, onde o tempo anda mais devagar e as conversas não têm pressa de terminar. Já estavam na meia-idade quando me afeiçoei deles. Não por grandes feitos, mas por uma coisa rara: companheirismo. Entre eles. E com qualquer cristão que aparecesse disposto a dividir umas horas de prosa.
Dona Isolda morava nos detalhes. Não era curiosa — era minuciosa. Queria saber quem, quando, onde, por quê e, se possível, a cor da camisa da pessoa envolvida.
As más línguas garantiam que ela repassava as histórias com a mesma riqueza de informações. Talvez até com juros. Dizia, com a maior naturalidade do mundo:
— Se me contaram, é porque não era segredo.
Já seo Adolpho era o oposto.
Exigia o “ph” no nome por honra do pai:
— Valorize seu nome, filho.
E valorizava mesmo — especialmente economizando palavras. Se satisfazia com pouca informação. Bastava uma referência do assunto. Um norte. Um rascunho. O resto ele deixava passar, como quem vê o rio correr sem precisar medir a correnteza.
Era monossilábico nas respostas:
— É.
— Pois é.
— Talvez.
Mas era um ouvinte de causar inveja a terapeuta. Daqueles que olham nos olhos e fazem a gente desandar a falar. Nunca entendi se o silêncio dele potencializou a fala de Dona Isolda ou se foi consequência dela. Talvez fossem duas engrenagens diferentes movendo a mesma máquina.
Certa vez jantei na casa deles.
Mesa farta, conversa mais ainda. Dona Isolda narrava acontecimentos da cidade com uma precisão que faria inveja a cartório. Seo Adolpho sorria. Às vezes soltava um “é mesmo?” no tom exato para que ela seguisse.
Voltei para o hotel alimentado — de comida e de histórias.
Deitado, tentando encontrar o sono, dei conta de uma coisa curiosa: o silêncio de seo Adolpho falava mais do que os pormenores entusiasmados da esposa.
Ele não interrompia.
Não corrigia.
Não disputava a narrativa.
Mas respondia.
Respondia no jeito de olhar.
No tempo entre uma frase e outra.
Na escolha do que não precisava ser dito.
E ali, no escuro do quarto, percebi algo que talvez levei tempo demais para aprender:
Nem toda resposta vem em palavras.
Às vezes queremos explicações longas quando o silêncio já revelou tudo.
Uma mensagem que não volta.
Uma ligação que não é retornada.
Uma ausência que se prolonga além do razoável.
Um “depois a gente conversa” que nunca chega.
O coração percebe antes. Mas a gente insiste em esperar a versão escrita. Queremos ouvir em voz alta aquilo que o silêncio já gritou por dentro.
Há silêncios que são respeito.
Há silêncios que são prudência.
Mas há silêncios que são resposta final.
E talvez o erro esteja em exigir legenda para aquilo que já foi entendido.
Seo Adolpho não era homem de discursos. Mas naquela noite, sem saber, me ensinou uma coisa:
O silêncio não é falta de resposta. É a resposta que a gente não queria ouvir.
E desde então aprendi a prestar mais atenção no que não é dito. Porque, no fim das contas, quem sabe escutar descobre que o silêncio também conversa.
Só que ele fala baixo.
E apenas para quem está disposto a ouvir.
Ariano Veríssimo.