O pudim não era mais o mesmo

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Crônica das andanças — 24/03/2026 (19)

Outro dia me aconteceu uma coisa pequena dessas que, se a gente não presta atenção, passam pela vida como um ônibus que não era o nosso, mas que depois descobrimos que era. Fui almoçar na casa de minha mãe, dessas visitas que já não acontecem com a frequência de antes, não por falta de vontade, mas por esse fenômeno moderno chamado agenda, que consegue ser mais rígido que a coluna de um sargento reformado.

Com alguma antecedência, havia pedido para que ela fizesse pudim. Não era um pedido gastronômico, era quase uma tentativa de reencontro, como quem telefona para um número antigo esperando que alguém ainda atenda.

Na minha infância, o pudim era uma espécie de acontecimento doméstico. Não era apenas sobremesa, era expectativa organizada. A gente sabia, desde o cheiro inicial do açúcar no fogo, que algo de importante estava para acontecer. É curioso como a memória escolhe seus templos: há quem se lembre de aniversários, viagens, conquistas. Eu me lembro de furinhos num pudim e da disputa silenciosa por uma fatia maior, como se ali estivesse concentrada uma parte substancial da felicidade.

Quando a sobremesa chegou à mesa, tudo parecia intacto. A forma era a mesma, a calda tinha aquela disposição generosa de sempre, e os furinhos permaneciam ali, firmes, como se tivessem resistido a todas as mudanças do mundo. Provei com a solenidade de quem revisita um lugar sagrado. E então veio a estranheza: não era o mesmo gosto. Não era ruim, não era melhor nem pior. Era apenas diferente, como se o tempo tivesse passado primeiro pelo paladar e só depois pela consciência.

Passei o resto do dia tentando entender o que havia acontecido. Cogitei falhas na receita, mudanças nos ingredientes, talvez o cansaço próprio dos anos na adorável quituteira. Até perceber que a alteração não estava no pudim. Estava em mim. Não apenas por ter reduzido o açúcar ao longo dos anos, o que certamente interfere, mas por algo mais difuso, mais silencioso, que vai se instalando na forma como experimentamos o mundo.

A vida, com o passar do tempo, não retira apenas as ilusões — ela modifica os sentidos. Aquilo que antes nos atravessava com intensidade passa a nos tocar com delicadeza, às vezes até com indiferença. Não é falta de emoção, é mudança de textura. Como certos encontros entre amigos que não se veem há anos: sentam-se no mesmo bar, riem das mesmas histórias, brindam aos mesmos episódios, mas no fundo percebem que estão celebrando uma lembrança, não um momento. O presente se torna um museu do passado, e a alegria, em vez de surgir espontânea, precisa ser convocada — quase sempre sem sucesso, como aqueles grupos de WhatsApp que nascem para unir e acabam dividindo amigos.

Não é que o afeto tenha desaparecido. Nem que a amizade tenha perdido valor. O que se altera é a maneira como sentimos, como se o entusiasmo tivesse sido substituído por uma espécie de consciência moderadora que nos acompanha para todos os lados. Antes, vivíamos os acontecimentos; agora, muitas vezes, os observamos. E há uma diferença grande entre participar da vida e assisti-la — diferença semelhante à de quem joga futebol e de quem apenas comenta o jogo depois.

Talvez seja esse o verdadeiro envelhecimento: não o das rugas ou dos cabelos, mas o da experiência sensorial. O mundo continua oferecendo as mesmas possibilidades, as mesmas pessoas, os mesmos cenários. O que muda é o gosto que temos por eles. Perdemos, sem perceber, o impulso de nos lançar com a mesma entrega que tínhamos quando tudo ainda parecia novo. O pudim continua doce, mas já não temos a mesma fome.

Desde então, tenho pensado que a questão não é recuperar o que fomos, nem tentar reviver sensações que pertencem a um tempo específico. A questão é perceber que o prazer não desaparece — ele apenas muda de forma, exige outro tipo de atenção, outra postura diante da vida.

Talvez seja isso: a vida não perde o gosto. Nós é que precisamos reaprender a saboreá-la — antes que ela resolva mudar novamente o cardápio sem nos consultar.

Ariano Veríssimo.

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