```html O mundo bola — Crônica da semana — Ariano Veríssimo

O mundo bola

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Crônica das andanças — 30/06/2026 (28)

Há coisas que pertencem a um país. Outras pertencem ao mundo. A Copa do Mundo pertence à humanidade.

De quatro em quatro anos, sem que ninguém convoque reunião ou assine decreto, o planeta inteiro faz a mesma coisa: para para olhar uma bola. É um fenômeno curioso. Pessoas que passam o ano discutindo política, economia, religião e os rumos da civilização subitamente passam a debater o que realmente importa: se o centroavante deveria ter chutado cruzado ou cruzado chutado.

O mais engraçado é que todos afirmam que a seleção já não empolga como antes. Mas basta a estreia se aproximar para o assunto reaparecer como visita antiga que conhece o caminho da cozinha. Surge na padaria. Aparece no elevador. Invade os grupos da família. Senta-se à mesa do almoço sem sequer pedir licença.

A seleção não empolga mais, dizem. Enquanto isso, milhões de pessoas já sabem quem será o próximo adversário, qual a provável escalação e em que minuto o técnico deveria substituir o ponta esquerda. A verdade é que o brasileiro pode até reclamar da seleção. Ignorá-la, jamais.

Nessa época também floresce uma espécie rara da natureza humana: o especialista instantâneo. Ele passa quatro anos sem assistir a uma partida completa. Mas, durante a Copa, conhece esquemas táticos, estatísticas avançadas e até a infância do lateral-direito da seleção da Dinamarca.

Seu habitat natural é o bolão. Ali, cercado por parentes, amigos e rivais ocasionais, ele distribui previsões com a segurança de quem recebeu informações diretamente do destino. Curiosamente, quando acerta, ninguém lhe dá crédito. Quando erra, todos se lembram.

E quando ganha o bolão, a suspeita é imediata:

— Não entende nada de futebol. Teve sorte.

Talvez seja a única competição do mundo em que o vencedor precisa pedir desculpas pela vitória.

Os dias de jogo têm outro ritmo. As pessoas se reúnem. A cerveja fica mais gelada. O churrasco começa mais cedo. As crianças correm pela casa. Os mais velhos contam histórias de Copas que parecem cada vez maiores à medida que os anos passam.

Por algumas horas, o mundo fica menor. E as distâncias também. Há uma espécie de trégua silenciosa. Não é que desapareçam as diferenças. É que elas aceitam esperar o segundo tempo.

Nessas horas, lembro das Copas que habitam a memória dos brasileiros.

Do menino Pelé, em 1958, apresentando-se ao mundo sem imaginar que o mundo jamais o esqueceria. De Garrincha, em 1962, provando que pernas tortas também podem desenhar linhas retas para a eternidade.

Da seleção de 1970, que parecia ter sido montada por um poeta apaixonado por camisas 10. De Romário e Bebeto, em 1994, conversando com a bola numa língua que só os grandes atacantes conhecem.

E daquele extraordinário encontro de letras R, em 2002: Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo e Roberto Carlos. Um quarteto capaz de transformar um campo de futebol em palco de espetáculo.

Mas talvez a verdadeira magia da Copa não esteja nos craques. Nem nos gols. Nem nas taças. Talvez esteja nas pessoas. Na vizinha que pendura bandeiras na janela. No avô que repete pela centésima vez a história da final de 1970. Na família inteira reunida diante da televisão. No abraço entre gente que passou meses sem se encontrar. No instante em que uma bola atravessa a linha do gol e desconhecidos comemoram como velhos amigos.

Quando a Copa termina, as bandeiras desaparecem. Os bolões são esquecidos. As mesas voltam à rotina. O mundo retoma seus assuntos urgentes. Mas fica uma impressão difícil de explicar. Durante algumas semanas, fomos uma aldeia. Uma aldeia barulhenta, teimosa, cheia de especialistas improvisados e palpites equivocados. Mas uma aldeia.

E talvez seja exatamente por isso que a Copa continue encantando tanta gente. Não porque o mundo vire futebol. Mas porque, por alguns dias, o futebol consegue fazer o mundo lembrar que ainda é uma comunidade.

Ariano Veríssimo.

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