Adorava conversar com Nietzsche. Não que fosse fácil. Levava uns bons minutos até que eu conseguisse atravessar aquele bigode monumental que ele carregava debaixo do nariz. Parecia que tinha comido um passarinho e deixado as asas de fora, abertas, desafiando o vento. Provavelmente eu não era o único incomodado com aquela vasta cortina de boca, mas ele fingia não perceber. Ou talvez percebesse e achasse que fazia parte do efeito. E funcionava. Porque ninguém atravessa aquele bigode sem sair diferente do outro lado.
Nietzsche tinha o hábito curioso de dizer as coisas como quem comenta a previsão do tempo. Sem pedir licença. Foi assim quando soltou, com a naturalidade de quem pede mais açúcar no café, que Deus estava morto. Quase deixei-o falando sozinho. Onde já se viu tamanha ousadia? Um homem simples como eu — que, é verdade, tem suas próprias definições do Criador, feitas mais de silêncio do que de teoria — não se impressiona fácil. Mas também não aceita fácil.
Passei dias emburrado com ele.
Depois comecei a desconfiar que talvez não estivesse falando de céu nenhum. Talvez estivesse falando da gente. Da mania que temos de usar o nome de Deus como enfeite de discurso, enquanto o coração anda vazio como igreja numa segunda-feira chuvosa. Não era a morte do divino. Era o desuso. E nisso, convenhamos, há uma diferença.
Nietzsche implicava com o rebanho. Não com as ovelhas em si — que são criaturas respeitáveis — mas com o hábito humano de balir junto. Dizia que muita gente prefere repetir a opinião do vizinho a enfrentar o trabalho de pensar. Olhando ao redor, confesso que o homem tinha seus momentos de clarividência. Há quem defenda ideias que nunca examinou e ataque pensamentos que nunca leu. E tudo com uma convicção invejável.
Ele também falava de uma tal vontade de potência. Nome feio, que assusta. Mas não era sobre mandar nos outros. Era sobre não se apequenar. Sobre acordar e não aceitar viver no modo economia de energia. Sobre tornar-se maior que a própria desculpa. Isso me agradava. Sempre achei triste quando alguém se conforma com uma versão menor de si mesmo.
O tal além-do-homem — que depois inventaram de usar para outras intenções bem menos nobres — me parecia, no fundo, alguém que parou de culpar o mundo por tudo. Um sujeito que olha para a própria bagunça e diz: “É minha. Eu arrumo.” Já é um começo.
Mas o que mais me surpreendeu foi uma expressão quase poética que ele deixou escapar: amor fati. Amar o próprio destino. Não apenas suportar o que acontece, mas abraçar o que acontece. Não é pouca coisa. Amar o que nos favorece é fácil. Quero ver amar o que nos contraria. Nessa parte, confesso, o alemão quase ganhou um ponto comigo.
Não concordávamos em quase nada, é verdade. Eu não enterraria Deus com tanta facilidade. Ele não colocaria fé nas minhas definições mais domésticas do sagrado. Mas as conversas eram das mais prazerosas. Porque eram conversas que exigiam coluna ereta. Pensar cansa. E ele não aceitava preguiça intelectual.
A vida dele, no entanto, terminou cedo demais para tanta inquietação acumulada. Há pessoas que parecem carregar um vulcão dentro do peito. Tanta pressão, tanta pergunta, tanta lucidez concentrada, que um dia implode. O silêncio o alcançou antes que o mundo conseguisse acompanhá-lo. E há algo de profundamente triste nisso: um homem que gritou tanto por lucidez terminar calado.
Talvez Nietzsche tenha exagerado aqui e ali. Talvez eu também exagere nas minhas defesas silenciosas do invisível. Mas uma coisa aprendi com ele: discordar pensando é mais honesto do que concordar por hábito.
E quanto ao bigode… no fim das contas, acostumei. Quando a ideia é grande, a moldura vira detalhe.
Ariano Veríssimo.