Não somos normais

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Crônica das andanças — 20/01/2026

Confesso logo de saída: eu não gosto tanto assim da música.

Nada contra quem gosta — cada um com seus ouvidos e suas devoções musicais —, mas nunca fui íntimo daquela canção, mesmo na voz da maravilhosa Gal Costa. E confesso mais: o próprio nome sempre me soou estranho. Vaca Profana. Não sei explicar direito, mas o título sempre me pareceu exagerado demais para os meus gostos moderados.

Ainda assim, outro dia a música apareceu. Era Caetano Veloso, cantando Vaca Profana, e eu ouvi com aqueles ouvidos meio atravessados que a gente reserva ao que não escolheu escutar. Ouvi mais por educação do que por interesse. Foi aí que aconteceu: a música passou… e a frase ficou.

“De perto, ninguém é normal.”

Pronto. Bastou isso.

Caetano seguiu cantando, a vaca continuou profana — e eu fiquei parado na calçada da ideia. Porque há frases que escapam da música e ganham vida própria. Frases que explicam mais gente, mais encontros e mais desencontros do que muito livro bem-intencionado por aí. Quem trabalha com palavras sabe o valor de se escrever uma frase dessas, que por si só vale um prêmio da academia.

Porque é exatamente assim. De longe, todo mundo parece razoável, coerente, até equilibrado. Mas basta chegar um pouco mais perto — não muito, veja bem — e a tal da normalidade começa a desandar. Aparecem as manias, as contradições, os silêncios esquisitos, as convicções cambaleantes, as paixões mal resolvidas. Cada qual guarda um ser só seu, revelado apenas a quem se aproxima demais… ou nem isso.

Além disso, o comportamento “anormal” pode ser consequência de um fato que transformou a vida toda de uma pessoa, ou algo que aconteceu ontem mesmo e a pessoa se esforça para continuar seguindo em frente. Todos nós temos algo que é só nosso, que não revelamos a ninguém, cada qual com seu motivo. São assuntos pesados demais — na opinião de quem o cultiva — para vir à tona. E olha que alguns nem são tão espinhosos aos olhos de terceiros.

E é por isso que sempre achei estranho esse hábito humano de julgar os outros. Julgamos porque esperamos uma normalidade que nunca existiu. Esperamos reações previsíveis de gente feita de histórias imprevisíveis. Queremos que o outro funcione como relógio suíço, quando, no fundo, todo mundo é mais para despertador velho: às vezes atrasa, às vezes adianta e, em certos dias, simplesmente não toca.

Os padrões até ajudam. Organizam, orientam, dão alguma noção de caminho. O problema é quando viram régua moral. Aí começam as comparações, as cobranças e essa mania esquisita de fingir equilíbrio enquanto se briga por dentro com as próprias convicções, com as decepções acumuladas e com aquelas paixões que nunca deram certo — mas insistem em não ir embora.

Confesso que eu não acho ruim que seja assim. Ao longo da vida, fui colecionando diferentes. Gente que parecia uma coisa e era outra. Gente normal demais até abrir a boca. Gente absolutamente confusa, mas de uma sinceridade comovente. Nunca tentei consertar ninguém. Acho que, se todo mundo fosse normal, a conversa acabaria rápido demais.

Talvez seja por isso que essa ideia de normalidade única nunca tenha dado muito certo por aqui. O Brasil é grande demais, misturado demais, humano demais para caber num molde só. Somos um povo feito de excessos, improvisos e contradições. Tentar nos enquadrar num padrão rígido é quase uma piada pronta — dessas que dispensam desfecho mirabolante.

No fim das contas, a frase de Caetano faz sentido justamente porque não acusa ninguém. Ela apenas constata. De perto, ninguém é normal. E ainda bem. A humanidade cresce na diversidade, não na padronização. Fingir normalidade é que costuma ser o verdadeiro problema.

E talvez seja isso que nos salve: aceitar que, vistos de perto, somos todos um pouco esquisitos — e seguir viagem sorrindo diante disso.

Ariano Veríssimo.

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