Não precisei andar muito para encontrar a personagem desta história. Ela nunca esteve longe. Sua presença sempre foi mais marcante em dezembro, época em que certas pessoas especiais surgem para marcar a nossa vida.
Décadas se passaram, e a repetição dos seus gestos só fez crescer uma admiração cada vez maior por ela. Uma beleza que não vinha da aparência, mas da alma — dessas que não fazem barulho, mas iluminam.
Existem muitas donas Vilmas espalhadas por aí. Gente comum, que não frequenta púlpitos nem dá entrevistas, mas entende, melhor do que muita gente que acha que já sabe tudo, a lição maior do aniversariante do dia 25: amar o próximo como a si mesmo. Sem discurso. Sem manual.
A dona Vilma que me vem à memória hoje está beirando os noventa anos. Teve pouco estudo formal, mas uma sabedoria que não cabe em livro algum. Viveu sempre em São Paulo, flutuando na classe média — com seus altos e baixos, apertos e respiros — e adotou um lema simples que não precisa de slogan: ajudar o outro.
Lembro sempre das histórias que conta, rindo muito, que ilustram bem quem ela é. Adoro as das feiras frustradas. Diz que muitas vezes saiu da feira com o carrinho cheio e voltou para casa com ele vazio. No caminho, ia deixando coisas pelo trajeto — um pacotinho aqui, umas frutas ali. Chegava apenas com o cabo do cacho de bananas. E com a sensação boa de quem tinha feito a coisa certa.
O Natal era sua época preferida.
Talvez porque fosse o momento em que ela podia transformar pouco em muito. Juntava o que tinha e mobilizava o bairro inteiro para arrecadar alimentos e, principalmente, presentes para as crianças. Aquelas que já sabiam, cedo demais, que o Papai Noel costumava errar o endereço das casas mais simples. Mas ela corrigia esse erro. Era como se dona Vilma fosse uma espécie de representante informal do bom velhinho.
Certo ano, numa viagem de Natal com minha família, num hotel do Nordeste, vivenciei uma experiência que mostrou como as pessoas podem ser tão diferentes.
Na noite do dia 24, um sujeito resolveu se fantasiar de Papai Noel para entregar presentes… apenas aos próprios filhos dele. O hotel estava cheio de crianças, todas acreditando que aquela noite seria especial. Os filhos do homem, felizes e sem culpa alguma, comentaram com todos em relato entusiasmado que o Papai Noel tinha ido pessoalmente ao quarto deles. Dá para imaginar o efeito disso nos outros pequenos — meus filhos entre eles. Questionado pelos demais pais, que tentavam administrar a decepção de suas crianças, o cidadão ainda brigou com todo mundo.
Era um Papai Noel de saco cheio — e de alma vazia. Esses também existem aos montes.
Talvez por pessoas como essa o Natal tenha virado esse grande comércio apressado. Vitrines, propagandas, listas e mais listas, como se o valor da data estivesse no tamanho da embalagem. Cada vez menos confraternização e mais embrulho.
As donas Vilmas do mundo mostram outra coisa.
O presente importa, sim — principalmente para quem quase nunca recebe nada. Mas o que chega junto é maior: a sensação de ser visto. De ser lembrado. De ser tratado como igual. Porque criança é tudo igual. Quem muda são os pais. Com o tempo, a idade vai nos afastando.
No dia da entrega dos presentes pela dona Vilma, num ato simples feito na rua mesmo, sempre acompanhado de um lanche (às vezes a única refeição do dia para muitas), as crianças sabiam que não era o Papai Noel de verdade. Sabiam que por trás da roupa simples havia uma pessoa comum, uma mulher do bairro. A máscara, se não fosse Natal, talvez até assustasse. As galochas de chuva completavam aquele singelo figurino.
Nada disso importava. Porque nunca foi só o presente. Só quem vive emoções como esta sabe o valor do sorriso de uma criança que viu sua esperança renascer.
E talvez o detalhe que mais tenha me marcado em tudo — e que ainda hoje me emociona ao lembrar — é que eu nunca chamei aquela figura de Papai Noel. Eu sempre a chamei de mãe.
Ariano Veríssimo.