Meu lugar preferido

Foto da crônica Meu lugar preferido

Crônica das andanças — 28/04/2026 (24)

Já andei comentando por aqui que sou um colecionador de frases.

Dessas que não servem pra nada prático — e talvez por isso sirvam pra tudo. Frases que a gente guarda como quem junta pedrinhas na beira do mar. Não porque valem dinheiro, mas porque, de algum jeito, fazem sentido dentro da gente.

E, como todo garimpeiro teimoso, vez ou outra me enfio nesse terreno meio pantanoso que é a internet. Um mundo cheio de cascalho, barulho e vaidade — mas que, de vez em quando, esconde uma pepita que faz tudo valer a pena.

Foi assim que, outro dia, me deparei com uma dessas frases.

Não era rebuscada. Não vinha assinada por nenhum filósofo europeu de nome complicado. Era simples. Direta. E talvez por isso mesmo, certeira.

Daquelas que dão a estranha sensação de que foram escritas por você — só que antes.

Antes de revelar o mistério, porém, preciso te fazer a mesma pergunta que foi feita a um senhor de feições simples, sentado num banco de praça qualquer desse nosso Brasil imenso:

— Qual é o seu lugar preferido?

Pergunta perigosa essa. Porque parece simples… mas não é.

Então, antes de seguir, faça um favor a si mesmo: pare um instante e tente responder com sinceridade.

É a sala da sua casa? Aquela poltrona que já conhece o formato do seu corpo melhor do que você mesmo? É um restaurante onde o tempo parece sempre mais leve? É uma cidade que te emprestou cores novas para os olhos? Ou talvez um templo, onde por alguns minutos você acreditou que tudo fazia sentido?

A lista, como a vida, não tem fim. E foi justamente por isso que a resposta daquele senhor me desmontou.

Ele não fez cara de quem ia escolher. Não pediu tempo. Não tentou impressionar. Apenas respondeu:

— Eu não tenho um lugar preferido. Eu tenho uma pessoa preferida. E onde eu estiver com ela… ali é o meu lugar preferido.

Pronto. Simples assim. E devastador.

Porque, naquele instante, ele não falou de geografia. Falou de presença. Não falou de espaço. Falou de vínculo. Não falou de onde… falou de com quem.

Confesso que, na mesma hora, assinei embaixo — com todas as letras, sobrenomes e versões que já fui ao longo da vida.

Porque, no fundo, é isso.

Feliz não é quem conhece os lugares mais bonitos do mundo. Feliz é quem tem ao lado alguém que transforma qualquer canto num lugar bonito.

Alguém que faz de um banco de praça um cenário. De uma sala comum, um abrigo. De um dia qualquer, uma memória.

E há um detalhe curioso nisso tudo…

Os lugares continuam os mesmos. Mas quando a pessoa certa chega, eles mudam. Ou talvez sejamos nós que mudamos dentro deles.

No fim das contas, tanto faz.

O que importa é que, de repente, o mundo fica habitável. E a vida… vivível.

Feliz daquele — e digo isso sem nenhuma cerimônia — que, como eu, tem uma pessoa ao lado capaz de transformar qualquer lugar em altar.

Não desses cheios de ouro e mármore. Mas daqueles silenciosos, onde mora o que realmente importa: o amor, a paz e essa sensação rara de estar exatamente onde se deve estar.

Sem pressa de ir embora. Sem vontade de procurar outro lugar.

Porque, naquele instante… ela já chegou.

P.S.: Crônica em homenagem aos 20 anos ao lado da minha esposa — a pessoa que fez de qualquer lugar o meu lugar preferido.
E não apenas o lugar. Com ela, cada instante ganha valor de eternidade. Como se não houvesse ontem, nem amanhã… apenas o agora, vivido com presença, amor e paz.
Meu maior presente. Um amor eterno… no lugar certo. Sempre.

Ariano Veríssimo.

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