Conheci Carl Jung no início da década de 80, quando ainda cursava Comunicação em São Paulo, na Casper Líbero. Naquela época, eu andava meio inquieto. Procurava gente que pudesse me agregar alguma coisa nova. Não queria ser doutor em nada, nem especialista em coisa alguma. Minha ambição era mais modesta — e talvez mais difícil: eu queria me tornar um espectador qualificado do mundo.
Para isso, precisava de informação. Um conhecimento meio de almanaque, desses que não salvam ninguém, mas ajudam a entender melhor a vida, ampliando o horizonte. Pode parecer estranho, mas sempre gostei de ampliar minha ignorância. Quanto mais aprendi, mais percebi o tamanho do mundo que eu nem sabia que existia.
Foi assim que Jung apareceu.
Ele já era, naquela altura, o psicólogo suíço reconhecido mundialmente como referência quando o assunto era a mente humana. Falava de coisas grandes — inconsciente coletivo, arquétipos, símbolos —, mas sempre me deu a impressão de que estava interessado mesmo era nas pessoas, não nos rótulos.
Uma frase dele me fisgou de imediato:
“Eu não sou o que me aconteceu, eu sou o que escolho me tornar.”
Aquilo caiu em mim como pedra em lago calmo. Passei dias jogando essa frase de um lado para o outro, como quem testa um objeto novo no bolso. No fundo, eu concordava com Jung. Sempre achei injusto a vida nos reduzir ao que nos aconteceu. Não somos meras marionetes conduzidas por fatos que não controlamos. Gosto mais da ideia de que a gente é feito das escolhas que insiste em fazer, apesar de tudo.
Nas nossas conversas, eu tomava certo cuidado para não o questionar demais. Se o homem havia rompido com Freud por divergências de pensamento, imagine o que faria comigo, um jovem metido a dar pitacos em assuntos que sequer dominava. Preferia ouvir. Às vezes perguntar pouco. E, muitas vezes, apenas concordar com a cabeça, mesmo sem entender tudo direito.
Porque nem tudo era fácil para mim naquela fase. Confesso. Arquétipos, sombra, inconsciente coletivo… algumas ideias entravam, outras batiam e voltavam. Mas eu gostava do jeito como Jung falava dessas coisas, como quem descreve paisagens e não fórmulas. Mesmo quando eu não entendia, sentia que havia ali algo verdadeiro. E isso, para mim, já bastava.
Numa certa época, peguei o hábito de levá-lo ao Parque do Ibirapuera. Íamos sem pressa. Sentávamos à sombra de uma árvore, perto do lago grande. Ficávamos ali conversando e divagando, enquanto o tempo fingia que tinha parado. Era um bom lugar para ideias grandes e silêncios respeitosos.
Só havia um detalhe que sempre me incomodou em Jung. Ele gostava de falar de coisas espirituais. Fenômenos estranhos. Experiências que eu prefiro deixar quietas no canto delas. Nunca fui chegado nesses assuntos. Acho que certas portas, uma vez abertas, dão trabalho demais para fechar. E sou medroso para atravessar algumas delas. Cautela e canja, como se diz no interior, não fazem mal a ninguém. E eu adoro uma canja!
Lembro bem da última vez que estive com ele. Estávamos na biblioteca lá de casa. Jung insistia nesses temas, animado, como quem descobre um brinquedo novo. Eu tentava mudar de assunto quando, de repente, ouvi um barulho forte no dormitório ao lado. Um estrondo seco, desses que fazem o coração dar um pulo antes da razão chegar.
Não pensei duas vezes. Deixei Jung falando sozinho, dei passos largos, saí apressado e fui para a rua. Não gosto dessas coisas. Nunca gostei. Prefiro Jung filósofo, psicólogo, pensador. Espírita, passo.
Depois disso, nunca mais nos encontramos para uma conversa longa. Mas a frase ficou. E o respeito também. Até hoje, quando a vida insiste em me definir pelo que passou, lembro de Jung — aquele do banco de parque — me dizendo, sem levantar a voz, que a gente não é o que aconteceu.
A gente é, no fim das contas, o que escolhe se tornar.
Ariano Veríssimo.