Acordei numa terça-feira qualquer, dessas que começam com o barulho do café passando e a impressão de que o mundo já está em movimento antes mesmo de a gente decidir se quer acompanhá-lo, e trouxe comigo uma sensação estranha, como se tivesse sido discretamente acusado durante a noite e não tivesse recebido a notificação formal do crime.
Não era dívida financeira, dessas que chegam por e-mail com prazo e juros; era algo mais sofisticado, mais subjetivo, uma culpa sem boleto, mas com vencimento permanente.
Levantei, fui ao banheiro, lavei o rosto tentando acordar não apenas o corpo, mas também a convicção de que estava tudo em ordem, e foi então que aconteceu: o espelho me devolveu um homem que era eu — e ao mesmo tempo não era.
O formato do rosto permanecia, a testa continuava generosa, os óculos estavam no lugar de sempre, mas havia nos olhos uma espécie de silêncio antigo, uma profundidade que não combinava com a minha pressa matinal. Não precisei de apresentação. Reconheci aquele olhar de imediato, como quem reconhece um velho conhecido que nunca frequentou sua casa, mas sempre frequentou seus pensamentos.
Era Kafka.
Não o Kafka das fotografias formais, de gravata bem posta e ar europeu; era um Kafka adaptado ao noticiário das oito, com expressão de quem já entendeu que o mundo raramente acusa com clareza, mas condena com eficiência.
Fiquei parado diante dele por alguns segundos, esperando alguma explicação, mas Kafka, como se sabe, não oferece explicações. Ele oferece desconforto. Ele se instala no silêncio e deixa que você faça o resto.
Saí do banheiro com a sensação de que um processo havia sido instaurado contra mim. No café da manhã, minha mulher perguntou se eu preferia pão ou fruta, e eu demorei mais do que o razoável para responder. Em tempos apressados, hesitação já é indício de culpa. Escolhi o pão com a estranha impressão de que deveria justificar minha escolha, como se carboidrato fosse infração moral.
No caminho para o trabalho, observei um homem pedindo desculpas por atravessar na faixa de pedestres. A faixa, veja bem, era o lugar exato onde ele deveria estar, mas ainda assim ele pediu desculpas, como se o simples fato de ocupar espaço exigisse autorização prévia. Pensei que talvez estivéssemos todos vivendo sob uma espécie de tribunal invisível, onde o direito virou concessão e a existência virou algo que se pede emprestado.
No escritório, uma reunião comum ganhou contornos curiosos: ninguém discordava frontalmente, mas todos se defendiam antecipadamente. As ideias vinham acompanhadas de justificativas, como se cada frase precisasse provar inocência antes mesmo de ser ouvida. Ali percebi que a culpa se tornou idioma oficial; falamos culpa fluentemente, conjugamos culpa no presente, no passado e no futuro, e ainda achamos que isso é maturidade.
Voltei para casa com a necessidade quase infantil de confirmar o que tinha visto pela manhã. Entrei no banheiro, encarei o espelho, e lá estava ele novamente, o mesmo olhar paciente, o mesmo silêncio observador.
Sentei na beira da cama e me lembrei do homem que acordou transformado em inseto. Não foi a carapaça que o matou, nem as patas, nem a aparência grotesca. O que o matou foi o constrangimento dos outros, o incômodo progressivo, o olhar que passa do susto à tolerância e da tolerância ao afastamento. A pior metamorfose, percebi, não é biológica; é quando a gente começa a acreditar que incomoda.
Talvez eu não estivesse vendo Kafka no espelho. Talvez estivesse vendo o mundo refletido em mim — esse mundo que acusa sem explicar, que exige desempenho constante, que ensina prudência antes de ensinar coragem, e que nos acostuma a pedir desculpas por respirar mais fundo.
Olhei mais uma vez para o homem do espelho. Ele não parecia ali para me condenar, mas para me lembrar de algo simples e incômodo: muitas vezes o processo mais rigoroso não acontece no tribunal da cidade, mas no tribunal íntimo, onde somos simultaneamente juiz, promotor e réu.
Apaguei a luz naquela noite com uma pequena decisão silenciosa. Posso até errar amanhã, posso hesitar diante do pão ou da fruta, posso não ter respostas rápidas para todas as perguntas — mas não pretendo continuar pedindo desculpas por existir.
E, curiosamente, dormi melhor.
Ariano Veríssimo.