João ou José?

Foto da crônica João ou José?

Crônica das andanças — 31/03/2026 (20)

Não vou dizer o nome da cidade. Não é mistério, é cautela mesmo. Hoje em dia, qualquer frase fora do lugar vira motivo para alguém atravessar a cerca do bom senso e bater à sua porta — ainda que seja a porta virtual — disposto a lhe ensinar como viver, pensar e até respirar.

Mas a história é antiga. E, como toda boa história antiga, não pertence a um lugar só. É do interior do Ceará, dessas cidades em que o sol parece ter assinado um contrato vitalício com o céu e o tempo anda num ritmo próprio — mais lento, mais repetido, como se a vida estivesse sempre ensaiando a mesma cena.

Por lá, há décadas, o poder não muda exatamente de mãos. Ele apenas troca de dono… mantendo a mesma família. De um lado, João. Do outro, José.

Dizem que João representa a esquerda e José, a direita. Eu nunca entendi muito bem quem foi o primeiro a dar esses nomes, porque, olhando de perto, a impressão que sempre tive é que são lados de uma mesma moeda — e, em alguns momentos, nem isso: parecem mais dois irmãos brigando pela herança enquanto dividem a mesma mesa.

João fala em justiça social com uma convicção que emociona. José fala em ordem e valores com uma firmeza que convence. Cada qual com seu discurso bem ensaiado, seus apoiadores fiéis e sua verdade pronta para consumo.

E o povo… ah, o povo escolhe.

Escolhe com paixão, com raiva, com esperança — às vezes tudo junto. Escolhe como quem acredita que, desta vez, vai ser diferente. Que agora vai.

De quatro em quatro anos, a cidade se transforma. Bandeiras surgem como flores fora de época, amizades ficam por um fio e mesas de bar viram tribunais improvisados, onde todo mundo é especialista em tudo — inclusive em voto alheio.

Promessas não faltam. Nunca faltaram. Acabar com a seca. Melhorar a saúde. Dar dignidade ao povo. São promessas tão bonitas que, por um instante, quase fazem esquecer que já foram feitas antes. E antes. E antes.

O curioso é que, terminado o espetáculo, pouca coisa muda para quem mais precisa. A cidade segue com seus velhos problemas, como se o tempo tivesse passado apenas para alguns. Porque para João e José, o tempo passa diferente. As casas crescem, os carros se renovam, os filhos ganham mundo — estudam fora, aprendem outras línguas, voltam com sotaque leve e currículo forte. Talvez sejam mais preparados que o restante da população. Ou talvez tenham apenas aprendido a jogar um jogo cujas regras nunca foram plenamente reveladas ao povo.

Mas, se há algo realmente intrigante nessa história, não são João nem José. É o povo. Gente que conhece a dureza da própria realidade, que sente na pele aquilo que foi prometido e não cumprido — e que, ainda assim, se levanta com uma energia admirável para defender um lado como se defendesse a própria honra.

Há quem defenda João com a fé de quem encontrou um salvador. Há quem defenda José com a convicção de quem protege um último bastião. E brigam. Brigam com amigos, com vizinhos, com parentes — às vezes com mais fervor do que brigariam por si mesmos.

É curioso como o homem simples, que muitas vezes não é ouvido quando fala de sua própria dor, encontra voz e coragem para defender quem nunca precisou ouvir essa dor de perto.

Teve uma eleição que ficou na memória do povo — não pelo resultado, mas pela ausência. José, por problemas de saúde, precisou se afastar. E, como todo império bem estruturado, já havia um herdeiro pronto: Joselito, seu filho, que entrou na disputa carregando o sobrenome, os discursos e, ao que tudo indicava, o mesmo caminho já pavimentado.

Do outro lado, cochichou-se que João poderia fazer o mesmo, dando lugar a Joãozinho. Mas João é homem experiente. Preferiu ele mesmo seguir à frente. Talvez por gosto. Talvez por estratégia. Ou talvez porque entenda, no fundo, que o poder é dessas coisas que a gente não entrega — nem quando diz que está pronto para isso.

Sobre Joãozinho, aliás, sempre se falou muito bem. Um rapaz talentoso, desses que parecem tocar em tudo e fazer prosperar. Há quem diga que tem o dom de Midas. Eu não duvido — embora, em certos lugares, transformar tudo em ouro seja menos um milagre e mais um método.

A eleição aconteceu como sempre acontece: com barulho, expectativa, desconfiança e, para alguns, a eterna sensação de que talvez fosse o caso de chamar um árbitro de vídeo para conferir se tudo foi contado como deveria.

No fim, houve vencedor. Sempre há. Mas confesso que, hoje, já não sei dizer quem foi. Talvez João. Talvez José. Mas há uma coisa de que tenho certeza, sem precisar recorrer a memória, nem a apuração oficial e nem a VAR eleitoral:

O povo, mais uma vez, não foi.

E.T.: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência… naturalmente.

Ariano Veríssimo.

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