Eles voltaram

Foto da crônica Eles voltaram

Crônica das andanças — 18/08/2026 (29)

Eles voltaram. Eu sabia que voltariam. Eles sempre voltam.

É uma espécie curiosa, de hábitos bastante regulares. Passa quase quatro anos longe dos olhos da população e, de repente, reaparece em bandos, sorridente, simpática e estranhamente interessada na vida da gente.

É época de eleição.

Nessa temporada, políticos descobrem – ou redescobrem - lugares que pareciam desconhecer até então. Vão à periferia. Passeiam em feiras livres. Entram em igrejas. Comem pastel. Tomam café em copo de plástico. Abraçam senhoras. Beijam crianças.

Principalmente crianças. Não sei por que candidato gosta tanto de beijar criança. Talvez algum marqueteiro tenha descoberto que criança dá voto. O que seria preocupante, porque criança não vota.

As esposas e os maridos também aparecem. Todos felizes. Famílias maravilhosas. Casamentos perfeitos. Sorrisos impecáveis.

E lá está o candidato abraçando aquele senhor desdentado que, durante os quatro anos anteriores, provavelmente teria muita dificuldade para conseguir sequer chegar perto de Sua Excelência. Agora ganha abraço, fotografia e, dependendo da importância eleitoral do bairro, até beijo.

Fico me perguntando onde essa gente fica durante os outros três anos e onze meses. Porque deve ser um lugar muito distante. Tão distante que não dá tempo de passar por aqueles mesmos bairros para contar o que fez. Ou, em alguns casos, explicar o que não fez.

Mas há outro fenômeno eleitoral que sempre me deixa curioso.

Por exigência legal, candidatos apresentam suas declarações de patrimônio. E a imprensa, que não perde uma oportunidade dessas, compara com o patrimônio declarado quatro anos antes.

Aí começa uma espécie de milagre da multiplicação. Tem patrimônio que cresce numa velocidade que faria qualquer gerente de investimentos abandonar a profissão. Um tinha dois milhões. Agora tem dezenas deles. Outro tinha quatro, passou para centenas.

São números tão grandes que nós, habitantes do mundo dos boletos, começamos a perder a referência.

E sempre fico curioso para saber se a Receita Federal também lê jornal. Pergunto porque ela já se interessou bastante pela minha vida.

Certa vez, por um erro de digitação, inverti um número na declaração do Imposto de Renda. Coisa na casa dos milhares de reais. Fui parar na malha fina. E não reclamo. Eu estava errado.

Minha pequena restituição ficou lá, quietinha, esperando que eu explicasse o acontecido. Expliquei, corrigi e tudo terminou bem.

Mas desde então fiquei intrigado com a expressão “malha fina”. Talvez eu finalmente tenha entendido. Malha fina deve servir para pegar grãos de areia. Pedrinhas pequenas. Porque aquelas rochas de alguns milhões de reais aparentemente encontram buracos suficientemente grandes para atravessar.

Talvez exista outra malha para elas. Vai saber... Uma malha grossa. Grossíssima. Do tamanho de uma rede de pesca industrial.

Mas eleição tem dessas coisas. De quatro em quatro anos, os candidatos reaparecem, as famílias ficam felizes, os pastéis ficam irresistíveis, as crianças ganham beijos, as periferias entram no mapa e alguns patrimônios revelam uma extraordinária capacidade de reprodução.

Depois vem a eleição. As urnas fecham. Os vencedores agradecem emocionados ao povo brasileiro. E eles desaparecem outra vez. Não todos, claro. Alguns continuam aparecendo na televisão, no Congresso, nas redes sociais. Mas aquele sujeito da feira, que toma café no copinho, abraça a tia, segura criança no colo e parece conhecer pelo nome até o cachorro do feirante… Esse desaparece.

Eu só espero que esteja bem. Não fico preocupado porque conheço seu ciclo natural. Daqui a quatro anos ele volta.

Ariano Veríssimo.

Compartilhe esta crônica:

Enviar pelo WhatsApp