Meu esporte favorito é o futebol.
Não que eu tenha sido um craque — longe disso — mas dei meus chutes por aí.
É bem verdade que minha posição mais frequente, no início das partidas, era o banco. Nunca entendi muito bem por que a turma me guardava sempre para a segunda etapa. Preferia acreditar que era deferência. Afinal, jogo se decide no segundo tempo. E, como já comentei por aqui outras vezes, autoestima nunca foi um problema.
Meu time de coração é o São Paulo, cujas glórias “vêm do passado”, como diz nosso imponente hino. Talvez José Porphyrio, autor da letra, não imaginasse que em alguma época viveríamos tanto tempo à sombra de conquistas antigas. A crise é grande e longeva; os feitos de sucesso são escassos — quase tão raros quanto os cabelos do nosso santo mascote.
Mal administrado nos últimos anos, o tricolor paulista potencializa sua fase negativa por um detalhe ainda mais cruel: a falta de crença em si mesmo. Paradoxalmente, o tão falado time da fé parece ter perdido justamente a fé… nele próprio.
Dia desses, ao ler uma notícia sobre o clube, deparei-me com uma declaração nada animadora do técnico Hernán Crespo. Disse ele que este é o pior momento da história do São Paulo e que o objetivo do ano seria alcançar 45 pontos — a pontuação que, teoricamente, evita o rebaixamento. Como assim?
Gosto do Crespo. De verdade.
Ele me parece daquelas pessoas sérias que gostaríamos de ter como amigo. Gente em quem se pode confiar. Daquelas companhias agradáveis, que não precisam falar alto para se fazer respeitar. Justamente por isso, talvez, suas palavras pesem ainda mais.
Mas não consigo concordar com ele.
Porque palavra também joga bola. Discurso também escala time.
E liderança não se mede apenas pelo que se faz, mas pelo que se faz acreditar.
Há muitos anos, ouvi um causo curioso. Uma turma considerada a pior da escola: notas ruins, professores desistindo, abandonando a turma, expectativas no chão. Até que um novo professor foi contratado. Em vez de alertá-lo sobre o problema, disseram-lhe que aquela era “a melhor classe da instituição”. E que estavam sendo muito criteriosos em sua contratação, ainda preocupados se ele corresponderia à expectativa de manter a evolução dos jovens.
O que aconteceu depois não teve nada de milagroso. Ao acreditar que estava diante da melhor turma da escola, o professor passou a exigir como se fossem os melhores. Falava com eles de outro jeito, cobrava mais, confiava mais, respeitava mais. Se preparava mais para estar à altura dos jovens, que precisavam dele para continuar evoluindo.
Os alunos, por sua vez, sentiram isso imediatamente. Perceberam que alguém os via de forma diferente — não como problema, mas como potencial. Eles não eram mais os alunos que estavam ali apenas para tentar passar de ano, com a nota mínima, mas um grupo com objetivos maiores. E, quase por instinto, retribuíram. Não por medo, mas por pertencimento.
Não foi por acaso que aquela classe, antes tratada como de segunda categoria, acabou se tornando referência. Quando alguém acredita em você, a gente tende a tentar não decepcionar.
Claro que os problemas administrativos do São Paulo não podem ser varridos para debaixo do tapete. Eles existem e cobram seu preço. E ainda cobrarão por um bom período. Mas, dentro de campo, continuam sendo onze contra onze. E ali entra algo que não se treina no CT: autoestima.
Um time pode, sim, superar todos os dificultadores e se sagrar campeão — se esse for o objetivo de um grupo unido.
Talvez alguns achem, a esta altura, que defendo a saída do Crespo. Estão completamente enganados. Acho, sinceramente, que ele é a pessoa certa para essa virada dentro de campo. Falta apenas o passo mais difícil — e mais decisivo: acreditar.
Acreditar em si mesmo, no grupo que tem nas mãos e, principalmente, abandonar essa ideia de que “não cair” é objetivo. O líder precisa ser o primeiro a mirar o topo.
Porque, se ele não acredita no título, não serão os adversários que olharão esse time com o respeito que os campeões merecem.
Nenhuma equipe cresce quando seu líder entra em campo descrente da vitória.
Nenhum time merece um líder que não acredita que pode ser campeão.
E.T.: A estreia no Brasileirão mostrou tudo isso de forma cristalina. A vitória contra o Flamengo — hoje o melhor time do Brasil — foi consequência da determinação de um grupo que entrou em campo para vencer. O que fez o próprio Crespo reconhecer que havia se expressado mal. Agora, falta acreditar que isso não foi um evento isolado.
Ariano Veríssimo.