Hoje não pretendo deixar você passar por esta crônica sem trabalhar um pouco os neurônios. E começo de maneira retumbante — palavra que só vi ser usada uma vez na vida, ao descrever o ato heroico de Dom Pedro I, que, dizem, bradou a independência montado num burrinho já cansado de tanto carregar história nas costas.
Pois bem. Responda com honestidade: você gosta de você?
A resposta, quase sempre, vem pronta. Rápida, firme, automática. Um “sim” tão convicto que chega a dar inveja às leis da natureza — essas, até hoje, incontestadas.
Mas eu começo a desconfiar. Desconfiar não de você, especificamente — até porque nem nos conhecemos direito —, mas desse “sim” coletivo que ecoa por aí como verdade absoluta. Porque, se a gente observar com um mínimo de atenção, o que se vê é outra coisa.
Quem gosta de si cuida de si. Mas o que mais se vê são corpos abandonados — não por falta de tempo, mas por excesso de descuido. Gente que trata o próprio corpo como se fosse alugado, e não a única casa onde vai morar até o fim.
Quem gosta de si escolhe bem com quem anda. Mas tem gente colecionando relações como quem acumula dívida — relações que desgastam, diminuem, adoecem… e ainda assim permanecem ali, como se sofrimento fosse vínculo.
Quem gosta de si honra suas origens. Mas o que não falta é filho que esquece dos pais quando o tempo começa a cobrar a conta. Pais que trocaram noites de sono por cuidado, e agora recebem visitas marcadas — quando recebem.
Quem gosta de si respeita o lugar onde vive. Mas basta sair na rua para ver lixo jogado no chão como se o problema fosse sempre de outro. E quando ampliamos o olhar… aí é devastação, poluição, exploração sem medida — um planeta tratado como se tivesse plano de reposição.
É curioso. A gente diz que gosta de si… mas vive como quem não faria esse tipo de coisa com alguém que ama.
Lembro de uma mulher que conheci ainda menino, em São Paulo.
Ela dizia — com uma convicção quase religiosa — que tinha nascido para gostar dos outros. E, de fato, fazia algumas boas ações aqui e ali. Era dessas que ajudavam quando alguém precisava.
Mas havia um detalhe.
Não poupava vizinho algum com sua língua afiada. Aceitava, em silêncio, os deslizes repetidos do marido. Se submetia aos caprichos de filhos que aprenderam cedo que amor, ali, vinha sem limite. E carregava um ressentimento antigo do pai — curioso, muito parecido com o homem com quem escolheu viver.
Ela morreu cedo. E morreu com a sensação de ter sido uma boa pessoa.
Talvez tenha sido. Mas, olhando de fora, parecia alguém que passou a vida inteira oferecendo amor… sem nunca ter aprendido a se incluir na lista.
E aí fica a pergunta incômoda: será que gostar dos outros é suficiente quando a gente se abandona no processo? Porque há um tipo de amor que parece bonito por fora, mas por dentro é só ausência de si.
Talvez o ponto seja mais simples — e mais difícil — do que parece.
Gostar de você não é discurso.
É prática.
É dizer “não” quando todo mundo espera um “sim”.
É se retirar de onde você já não cabe.
É cuidar do corpo, não por estética, mas por respeito.
É rever relações.
É ajustar rotas.
É se tratar com a mesma gentileza que você oferece a quem ama.
No fundo, é aprender a fazer consigo o que você faria por alguém por quem estivesse apaixonado.
E, se isso tudo ainda parecer complicado demais, há uma imagem que ajuda.
Toda vez que entro num avião, lembro da orientação dos comissários de bordo: em caso de despressurização, as máscaras de oxigênio cairão automaticamente.
Se a pessoa ao seu lado precisar de ajuda… coloque primeiro a máscara em você.
Só depois ajude o outro.
Não é egoísmo. É condição de sobrevivência.
Talvez esteja aí o começo de tudo: sempre é tempo de iniciar um novo amor — e, dessa vez, incluir você nessa história.
Ariano Veríssimo.