Domingo de manhã, e eu caminhava sem rumo — o que, convenhamos, é o melhor tipo de rumo que se pode ter. Andar à deriva é uma prática que tenho cada vez mais exercitado. Acredite em mim... É o que se deve fazer quando se quer viver o novo, sair da mesmice que o caminho da roça nos aprisiona.
O sol ainda ensaiava sua claridade, meio preguiçoso, e a cidade parecia em ressaca de semana: os carros dormiam, os cachorros meditavam, e os velhos — esses sim — trabalhavam. Ou melhor, viviam a sua vida, apegando-se aos dias sabendo que eles seriam cada vez mais contados.
Foi numa praça pequena, dessas que nem têm nome visível, que vi os quatro.
Quatro senhores — ou, para ser justo, quatro meus futuros colegas de aposentadoria (um pouco mais velhos, mas ainda mostrando vitalidade) — sentados num banco como se o mundo dependesse daquela conversa.
Falavam animados, gesticulavam, riam tanto que até as árvores pareciam balançar em solidariedade, curiosas pelos temas que provocavam energia tão positiva. O mundo precisa desta energia contagiante que manda sua sisudez para outro canto do universo. Em algum lugar de nossa história, a vida perdeu um pouco de sua graça.
Parei.
Disfarcei um alongamento, depois uma coceira inexistente no tornozelo, e acabei me sentando num banco mais distante. De onde estava, não ouvia uma palavra.
E aí começou o perigo: quando não se ouve o que o outro diz, a imaginação assume a direção — e a minha nunca teve carteira de motorista.
Um deles parecia o contador oficial de histórias. Com seu bonezinho italiano clássico, de tom pastel, dominava a conversa. A cada frase, abria os braços como quem pesca lembranças grandes.
Os outros três riam antes mesmo do fim — o que sempre é um bom sinal: quando o riso vem antes da piada, é porque o afeto veio antes das palavras. Talvez lembrassem de alguma façanha da juventude, talvez de um amor antigo, talvez só estivessem zombando da própria velhice — o que é uma das formas mais elegantes de sabedoria.
Fiquei ali, especulando.
Será que se viam sempre, ou era reencontro raro, desses que exigem dois anos de promessas e dez de saudade? Talvez tivessem combinado aquilo há décadas: “um dia, quando a vida deixar, a gente se encontra na praça”. E a vida, caprichosa, atrasou — mas chegou.
O mais magro levantou-se para gesticular melhor e quase perdeu o equilíbrio. Os outros gargalharam — e ele também, como se cair fosse parte do show. Ali, percebi: não era o assunto que importava, era o prazer de estarem juntos. A felicidade deles não estava no conteúdo, mas na presença.
E eu ali, solitário no meu banco, me peguei sorrindo por tabela. Lembrei dos meus próprios amigos — os que o tempo levou para longe, para outras cidades, outras prioridades. A vida é assim: distribui a gente como quem embaralha cartas — e depois finge que foi sem querer.
Fiquei pensando em quantas vezes já ri sem precisar entender o motivo, só porque quem ria ao meu lado era importante. A saudade, percebi, é uma risada que ficou sem eco. Ah, como eu queria reviver alguns dos melhores momentos de minha vida. Os amigos e familiares, todos queridos, sempre foram os personagens das histórias que o tempo não apagou. Mas só se vive uma vez na vida. Portanto, fica a dica: se o momento é especial, viva-o como se nada mais importasse. Largue tudo que o distraia.
Quando dei por mim, o sol já estava alto e os quatro se levantavam devagar, como se desmontassem um ritual. Um deles olhou para o céu — talvez para conferir se ainda estava azul, ou se já era hora do almoço. Foram se afastando, cada um com seu passo e seu passado.
Levantei-me também, ajeitei o corpo que já negocia com os sessenta, e segui caminho. Mas, no fundo, senti que tinha participado da conversa — sem ouvir uma única palavra. Porque certas falas não entram pelo ouvido. Entram pelo coração, que entende mais do que a gente escuta.
Ariano Veríssimo.