Cicatrizes

Foto da crônica Cicatrizes

Crônica das andanças — 19/05/2026 (26)

Outro dia, saindo do banho, fiquei alguns minutos olhando para minhas cicatrizes diante do espelho. E descobri uma coisa curiosa: meu corpo virou uma espécie de mapa da minha biografia. Tem marca em todo canto.

Uma no joelho esquerdo me lembra uma bicicleta velha que freava com a mesma eficiência de uma geladeira descendo uma ladeira. Outra, perto da sobrancelha, nasceu numa disputa infantil cuja importância histórica era tão gigantesca que nenhum dos envolvidos hoje consegue lembrar o motivo da briga.

Cada cicatriz guarda uma história. Algumas gloriosas. Outras apenas profundamente idiotas.

Na minha infância, brincar era uma atividade de risco. As crianças de hoje talvez escutem nossas histórias como quem ouve ficção científica.

Nós brincávamos na rua. Corríamos. Subíamos em árvore. Jogávamos bola descalços no asfalto quente. Construíamos carrinho de rolimã cuja engenharia desafiava qualquer norma internacional de segurança. E, de alguma maneira misteriosa, sobrevivíamos.

Nossa geração não colecionava troféus virtuais. Colecionava joelho ralado. Hoje o menino ganha medalha no videogame. Na nossa época, o prêmio vinha em forma de mertiolate ardendo na perna.

Tenho uma cicatriz particularmente especial na panturrilha direita. Essa merece capítulo próprio. Nasceu numa pescaria com meu amigo Felipo, um italiano espalhafatoso que transformava qualquer tilápia em criatura mitológica.

Felipo era daqueles pescadores que aumentavam tanto as histórias que, se o peixe viesse pequeno, ele aumentava o braço na distância da narrativa. Pois bem. Num lançamento particularmente empolgado, Felipo puxou a carretilha com tanta violência que o anzol desistiu da água e decidiu pescar algo mais próximo. No caso: eu.

A linha saiu voando igual míssil teleguiado e o anzol encontrou minha perna com precisão cirúrgica. Até hoje Felipo conta, às gargalhadas, que fui o maior exemplar que ele já fisgou. E talvez tenha sido mesmo.

Há também a cicatriz do futebol de várzea. Essa carrego com orgulho e um pouco de exagero narrativo — direito legítimo de todo cronista.

Nunca fui exatamente um grande centroavante. Meu futebol estava mais para “operário da bola” do que para craque internacional. Mas naquele dia específico, eu estava prestes a marcar o gol mais bonito da história do esporte mundial. Um verdadeiro gol Puskás. Pelo menos é assim que me lembro.

Quando avancei rumo ao gol, um zagueiro claramente mal-intencionado decidiu interromper meu destino glorioso usando métodos que fariam a Inquisição parecer moderada. Resultado: o gol não saiu, mas a cicatriz ficou.

Convenhamos: memória de pescador e cronista sofre naturalmente pequenas ampliações poéticas com o tempo.

Também tenho cicatrizes domésticas. E talvez sejam as minhas preferidas. Um corte na mão preparando carne para churrasco. Uma queda brincando com meus filhos. Uma unha sacrificada heroicamente numa gincana familiar disputada com seriedade olímpica. Tudo isso virou marca. Mas virou também lembrança feliz.

E talvez aí exista uma diferença importante que aprendi com o tempo. As cicatrizes do corpo normalmente fecham. Viram apenas sinais de que a vida passou por ali.

O problema são as outras. As invisíveis. Essas eu felizmente não carrego em excesso. E me considero um homem de sorte por isso. Porque conheço gente que nunca permitiu que certas feridas cicatrizassem. Pessoas que parecem quase afeiçoadas à própria dor, como se abandonar o sofrimento fosse também abandonar parte da própria identidade.

Há gente que transforma a cicatriz em residência fixa. E isso é triste. Cicatriz bonita é aquela que virou lembrança — não prisão.

Talvez amadurecer seja justamente isso: entender que algumas dores fazem parte da caminhada, mas não merecem virar moradia permanente dentro da gente.

Hoje olho para minhas marcas com certo carinho. Cada uma delas me lembra que vivi. E viver, convenhamos, às vezes deixa marcas mesmo.

Ariano Veríssimo.

Compartilhe esta crônica:

Enviar pelo WhatsApp