Há quem acredite que o ano só começa depois do Carnaval. Outros juram que tudo muda na segunda-feira seguinte ao réveillon. Mas a maioria de nós deposita mesmo suas fichas no dia 31 de dezembro, como se essa data tivesse algum poder místico, quase sobrenatural, capaz de nos transformar em versões melhores de nós mesmos.
É curioso. Bastam alguns fogos no céu, uma taça de espumante e uma contagem regressiva mal sincronizada para acreditarmos que, a partir da meia-noite, a vida vai colaborar. Que os velhos hábitos pedirão demissão espontânea e que a força de vontade, essa senhora tão arredia, finalmente resolverá trabalhar a nosso favor.
E que bom que seja assim. Mesmo quando o ano que termina foi ruim, essa fantasia coletiva renova esperanças. O problema não está no desejo de mudar. O problema, às vezes, está na forma — ou no prazo.
Foi pensando nisso que me lembrei de um amigo antigo, frequentador assíduo da minha casa e personagem ilustre da minha galeria particular de figuras humanas. Seu nome é Francisco, mas ninguém o chama assim. Para todos nós, ele é o Chico Segunda.
Chico é aquele tipo de pessoa que vive em permanente fase de planejamento. Vai parar de fumar no mês que vem. Vai começar um regime depois das férias. Vai entrar na academia assim que organizar a rotina. Já se matriculou em tantas academias da cidade que, hoje, é tratado como velho conhecido: dispensa avaliação física, recebe abraço do recepcionista e promessa de desconto vitalício. O Chico te lembra alguém?
O apelido surgiu numa mesa de bar. Era início do pontificado do Papa Francisco, e Chico, alvo constante das gozações da turma, resolveu filosofar. Disse que, de tanto ser provocado pelos amigos, merecia no mínimo uma canonização. Se não desse certo, poderia virar papa. Afinal, seu nome também era Francisco.
Autoproclamou-se, ali mesmo, Francisco Segundo. Foi quando um dos gaiatos da mesa arrematou, com a precisão de um artilheiro em tarde inspirada:
— Nada disso. Você não é Francisco Segundo. Você é Chico Segunda.
Risos gerais. Referência direta às segundas-feiras milagrosas, aquelas em que todos os projetos começam… sem nunca começar.
Mas seria injusto reduzir Chico a isso. Ele é divertido, generoso, querido por todos. Daqueles que a gente gosta de ter por perto, mesmo sabendo que dificilmente cumprirá o que promete — sobretudo a si mesmo.
E os amigos a gente não julga. Apoia. Todos temos um Chico para cultuar em sua melhor forma: pessoas de desejos grandiosos, coragem momentânea e ações nem sempre condizentes com tudo que suas mentes criativas idealizam. Assim, as promessas vão ficando por aí.
Talvez o problema nunca tenha sido a falta de vontade. Talvez tenha sido o descompasso entre o desejo e o momento. Desejar é fundamental. Estar aberto ao novo, também. Mas há sonhos que pedem passos menores — e um calendário adequado para que se tornem realidade.
Que o ano novo continue sendo esse ritual bonito, cheio de promessas e esperanças. Só convém lembrar que a vida não começa numa data específica. E que algumas segundas-feiras são melhores quando ficam apenas no calendário. Não devemos desanimar se terça chegar com mais uma frustração.
Por isso, não faço pouco das promessas de ano novo. Gosto delas. Acredito nelas. O ser humano é bicho movido a desejo, e sem sonho a gente apequena a vida. O mundo, se andar para frente, é sempre empurrado pelos sonhadores — mesmo pelos que tropeçam, erram o passo e precisam recomeçar na outra segunda-feira.
Meu conselho é simples, desses que cabem no bolso da camisa: escreva seus desejos num papel. Não é superstição, é compromisso. Quando a gente escreve, o sonho deixa de ser conversa solta e vira acordo sério da pessoa com ela mesma.
Que venha o ano novo, então, com seus riscos e suas promessas. Que traga esperança, algum juízo e coragem na medida certa. E que os sonhos de todos nós — até os mais teimosos — encontrem, um dia, o jeito certo de acontecer.
Feliz Ano Novo.
Ariano Veríssimo.