Outro dia caminhei pela Avenida Paulista. Aquela avenida que parece não parar nunca — gente correndo como se tivesse um compromisso com o tempo, buzinas disputando espaço com a impaciência, prédios altos demais para quem já não olha mais para cima.
E, no meio disso tudo, algumas árvores. Poucas, é verdade. Mas firmes. O que me chamou atenção não foram elas. Foram as folhas no chão. Espalhadas pela calçada, sendo pisadas sem cerimônia, ignoradas como se fossem só um resto — um erro da paisagem urbana que alguém ainda não varreu.
Mas não eram.
Havia ali um certo silêncio que contrastava com o barulho da avenida. Um silêncio de coisa que já cumpriu seu papel. E não sei se foi o vento ou a memória, mas aquelas folhas me levaram direto para Campinas. Lembrei de Mariângela.
Mariângela nunca foi dessas pessoas que chegam e ocupam o ambiente. Mas também nunca foi do tipo que passa em branco. Ela tinha uma presença tranquila… dessas que não se impõem, mas permanecem.
A vida, como costuma fazer com quem tem coragem de continuar, não facilitou. Vieram perdas, decepções, desencontros. Coisas que, em muita gente, viram dureza. Nela, viraram escolha. Mariângela aprendeu cedo — ou talvez tarde, mas aprendeu — que nem tudo que cresce em nós merece permanecer.
Enquanto muita gente insiste em segurar, ela começou a soltar. Primeiro, as autocobranças que já não faziam sentido. Depois, aquela necessidade de agradar quem nunca esteve disposto a ficar. Mais tarde, relações que drenavam mais do que somavam.
Teve um episódio que ela me contou uma vez. Disse que passou anos mantendo uma amizade que já tinha virado hábito, não afeto. Sabia disso. Sentia isso. Mas continuava.
— “Parecia errado ir embora de algo que ainda existia”, ela me disse.
Até que um dia percebeu que o que ainda existia… era só a lembrança do que já tinha sido. E aí soltou. Sem briga. Sem anúncio. Sem espetáculo. Só soltou.
Outro dia, conversando com ela, ouvi algo que ficou:
— “Tem coisa que não precisa ser resolvida. Só precisa ser deixada.”
Na hora, confesso, achei simples demais. Depois entendi. As árvores fazem isso todos os anos. Quando a luz diminui, quando o frio se aproxima, quando manter tudo começa a custar caro demais… elas não entram em negociação. Não tentam convencer o outono a esperar mais um pouco. Não fazem reunião com as folhas para decidir quem fica.
Elas soltam. Não por fraqueza. Por sabedoria. Porque sabem que há um tempo de manter… e um tempo de deixar ir.
Mas nem todo mundo aprende isso. Há quem perceba os sinais — o desgaste, o cansaço, o silêncio onde antes havia vida — e, ainda assim, insiste. Gente que tenta prorrogar o verão quando o inverno já chegou faz tempo. Que rega folha seca esperando que ela volte a ser verde. Que permanece em relações, projetos, versões de si mesma… não por amor, mas por medo.
Medo de começar de novo. Medo do vazio. Medo de admitir que acabou. E, tentando não perder, vai se perdendo. Porque há um custo alto em segurar o que já deveria ter sido solto.
Na Paulista, ninguém parecia notar aquilo. Mas, no chão, estava acontecendo um espetáculo silencioso: árvores abrindo mão do que já cumpriu seu papel.
Mariângela fez o mesmo. E talvez seja por isso que, hoje, ela floresce de um jeito que não depende da estação. Porque quem aprende a soltar no tempo certo… nunca deixa de florescer.
Ariano Veríssimo.