A tripulação

Foto da crônica A tripulação

Crônica das andanças — 21/04/2026 (23)

Outro dia me deparei com uma entrevista da astronauta Christina Koch, recém-chegada de uma viagem à Lua, na nave Artemis 2. Interessei-me, porque não é todo dia que alguém vai ali dar uma voltinha e volta pra contar.

Perguntaram a ela o que mais tinha aprendido. E ela respondeu, com a serenidade de quem viu a Terra de fora:

— A importância da tripulação. Lá em cima, todos têm um objetivo comum. Um depende do outro.

Até aí, pensei: faz sentido. No espaço, ou você coopera… ou não volta.

Mas veio a segunda pergunta:

— E o que mais te impressionou?

Confesso que esperei a resposta clássica. A Terra azul, girando majestosa, poesia pura. Mas ela veio com outra imagem.

Disse que o mais impressionante foi perceber que somos como um bote salva-vidas, flutuando intacto no meio de uma escuridão infinita. Um lifeboat hanging undisturbed in the universe, para ser mais preciso, embora meu inglês não esteja à altura de tamanho feito.

E então fechou o raciocínio com uma frase que daria uma bela moldura:

— A Terra é uma tripulação.

Eu queria acreditar nela. De verdade. Mas ouso dizer que a astronauta ainda está… um pouco no mundo da Lua. Porque uma coisa é olhar a Terra de longe. Outra bem diferente é viver nela.

Sim, é bonito pensar que somos uma bolinha azul, viajando sabe-se lá pra onde, numa imensidão que não cabe na nossa cabeça. Mas acreditar que somos uma tripulação… aí já é um salto maior do que qualquer foguete já deu.

A Terra pode até ser um barco. Mas a tripulação… ainda não combinou isso entre si.

Se existe um plano de voo, ninguém me mostrou. Porque aqui embaixo, o que mais se vê não é cooperação — é disputa. Não é sincronia — é ruído. Não é propósito comum — é cada um remando pra um lado… quando resolve remar. E às vezes, nem isso.

Tem gente furando o próprio casco. Guerras que atravessam gerações como se fossem heranças. Crimes cometidos em nome de Deus — como se Ele precisasse de advogado. Gente com tanto, acumulando mais… e gente com nada, aprendendo a sobreviver com o que não existe. Racismo que muda de roupa, mas não de intenção. Fome que não é falta de comida — é falta de vergonha coletiva.

E isso nas grandes manchetes. Porque no cotidiano — que é onde a vida realmente acontece — o retrato não melhora muito.

Gente que vê injustiça e vira o rosto. Gente que pisa no outro com a naturalidade de quem sobe um degrau. Gente que já não se espanta com o errado — apenas calcula se compensa.

O problema não é a escuridão do universo. É a que a gente aprendeu a carregar por dentro. Cada um seguindo sua rota. Isolado. Como se fosse um pequeno planeta particular. Girando em torno de si mesmo. Num silêncio que não é o do espaço — é o da indiferença.

Mas aí, no meio desse cenário meio desalinhado, acontece uma coisa curiosa. A gente encontra gente boa. E não é pouca.

Gente que ajuda sem plateia. Que faz o certo quando ninguém está olhando. Que divide o pouco. Que escuta. Que cuida. Que insiste. Gente que, talvez sem perceber, já vive como parte de uma tripulação.

A humanidade não é ruim. Ela só ainda não se organizou. Talvez seja isso. Não falta bondade. Falta alinhamento. Falta entender que o outro não é passageiro — é parte do mesmo barco. Que se um lado afunda… não existe outro lado que flutue sozinho.

Repetimos frases, mas não vivemos conforme os ensinamentos de alguém que também parecia viver fora daqui. Que falava de amor quando o mundo falava de poder. De perdão quando o normal era revidar. De servir… quando todos queriam mandar. Chamavam de sonhador. De ingênuo. Talvez até dissessem que ele vivia no mundo da Lua.

Mas, curiosamente, dois mil anos depois… ainda estamos tentando entender o que ele quis dizer. Talvez os mais lúcidos pareçam fora da realidade. Porque enxergam um mundo que ainda não existe.

Eu não sei se somos, de fato, uma tripulação. Mas gosto de pensar que podemos ser. Não porque já somos… Mas porque ainda dá tempo de aprender a ser.

Ariano Veríssimo.

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