Nem tudo que a gente vê na internet é de se jogar fora, embora reconheça que caçar conteúdo proveitoso seja tão difícil — e até mais trabalhoso — quanto a busca de uma pepita de ouro em garimpo saturado. Mas há uma semana me mostraram um vídeo muito interessante: um artista consagrado resolveu descer do Olimpo.
Não sei se foi por inspiração divina ou estratégia de divulgação de seu novo filme, que está para ser lançado. Isso pouco importa. Os deuses modernos, afinal, têm assessoria de imprensa, e nunca sabemos se há verdade ou encenação em seus atos. A indústria comanda. Ainda assim, quero acreditar — pela expressão do rosto e pelo evidente prazer de estar ali — que havia sinceridade naquele momento.
Hugh Jackman apareceu numa escola de artes como quem entra numa sala de espera qualquer. Os alunos sabiam que haveria uma surpresa. Mas surpresa anunciada não é surpresa: é ansiedade em traje de gala.
O burburinho corria pelos corredores como vento antes da tempestade. Quando a porta se abriu, houve uma comoção geral. Uma explosão silenciosa, dessas que fazem barulho por dentro. Não era apenas alegria. Era o encontro súbito entre o imaginário e o concreto. Era o sonho materializado, de barba bem-feita e sorriso de cinema.
O ator trouxe instrumentos novos para presentear os alunos daquela escola — e algo bem maior: a prova viva de que o impossível também sabe pegar avião. Jovens artistas tinham diante de si a materialização do próprio sonho, ali mesmo, no espaço cotidiano onde ensaiam seus futuros.
No meio da algazarra, um rapaz, desses que ainda carregam o mundo inteiro ao redor da própria cabeça, disse com a naturalidade de quem revela um segredo universal:
— Hoje ainda é terça-feira… e esta já é a melhor semana da minha vida.
Fiquei pensando nisso por um longo tempo. Passamos a existência inteira esperando o auge, como se a felicidade fosse uma medalha entregue apenas no pódio final. Lembrei, então, de um homem que dedicou a vida a escalar montanhas geladas. Subia como quem foge da própria biografia. Cada metro conquistado era um silêncio a mais entre ele e o mundo.
Anos depois, chegou ao cume mais alto que conhecia — e pouco importa o nome da montanha, pois todo ápice tem o mesmo frio. Lá de cima, o horizonte parecia infinito. Mas o coração, estranhamente, parecia vazio.
Foi então que percebeu: a conquista não devolve o que a jornada levou. A descida seria longa. E ninguém o esperava lá embaixo. Entendeu tarde demais que a vida não é o pico. É o caminho onde ainda existem mãos, risos, vozes e cafés derramados.
O jovem da escola talvez nunca tenha escalado nada além de suas próprias dúvidas. Mas já compreendeu o essencial:
A melhor semana não é a que termina. É a que começa quando a gente decide viver o agora como se fosse suficiente. Porque o sonho pode demorar a chegar.
Mas a felicidade não precisa esperar por ele.
Coincidência ou não, o novo filme de Hugh Jackman conta a história de gente comum que insiste em sonhar quando o mundo já está cansado de esperar. Em Song Sung Blue, um casal passa a vida inteira cantando músicas alheias até descobrir — tarde demais ou cedo o bastante — que o sonho não tem relógio. Às vezes ele chega quando o corpo já tem rugas, mas o coração ainda guarda voz.
Talvez a vida seja isso.
Não o topo.
Não o aplauso final.
Mas a travessia onde ainda é possível sentir o vento.
Ariano Veríssimo.