Já ouvi muita conversa boa — e muita conversa fiada — sobre a origem da vida. É daqueles assuntos que atravessam gerações sem nunca se chegar a um acordo. Talvez seja melhor assim.
Nunca escondi que tenho simpatia pela teoria da evolução. Cresci ouvindo falar de Darwin, das histórias de espécies que se adaptam e mudam para sobreviver. Jamais vi nisso um ataque à fé. Ao contrário. Sempre acreditei — e continuo acreditando — numa força maior que deu origem a tudo isso. Universo, matéria, vida.
O Deus em que acredito, porém, não é aquele que passeava pelo paraíso fazendo companhia a Adão, nem o que aparece em certas páginas da Bíblia como um fiscal rigoroso, mais preocupado em punir com fúria quem ousa sair da linha do que em criar. Um Deus que dita regras minuciosas de conduta, exige adoração, pureza obsessiva e sacrifício sempre me pareceu pequeno demais para ter inventado um universo com bilhões de galáxias espalhadas pelo cosmos. Será que Ele não tinha outra coisa mais importante a fazer a não ser ficar nos fiscalizando?
Mas respeito quem crê na criação divina do homem e da mulher, e também quem encontra nos textos bíblicos o caminho espiritual. Aceito, inclusive, que os textos sagrados pedem interpretação — jamais leitura rasa. Difícil é achar quem possa interpretá-los com isenção.
Ariano Suassuna pensava assim, mas à sua maneira. E a maneira dele era sempre melhor que a nossa. Lembro de uma vez que falou sobre a origem da vida com aquela mistura rara de fé, inteligência e humor. Ele não atacava ninguém. Contava, provocava, fazia rir — e, quando a gente percebia, estava pensando.
Afirmou que Darwin podia dizer o que quisesse, mas ele não aceitava que a inteligência humana tivesse surgido de bicho nenhum. Na inteligência do homem, segundo ele, havia uma centelha divina que nenhum animal alcançava.
E então seguiu, com aquela ironia elegante que só Ariano tinha:
— Dizem que no começo era tudo molécula. De repente, um grupo de moléculas enlouqueceu e virou célula. Aí as células começaram a nadar. Depois resolveram: ‘Esse mundo está muito monótono. Vamos virar macho e fêmea’. Foram fazendo isso até virar peixe. Um grupo de peixe bateu suas nadadeiras demais e virou passarinho. E assim foram mudando… até chegar à Nona Sinfonia de Beethoven. É preciso mais fé pra acreditar nisso do que na história de Adão e Eva.
Bom ponto, mestre.
Não sei explicar o que aconteceu na Terra durante os bilhões de anos que antecederam o surgimento dos primeiros homens. Dois milhões de anos atrás, dizem os cientistas, apareceu o Homo erectus. Ontem, em termos do universo. Um detalhe de rodapé na história do tempo.
Se a gente estica ainda mais essa linha, a coisa fica quase inacreditável. Um ponto minúsculo que explode, há treze bilhões de anos, e continua se expandindo até formar tudo o que existe. Galáxias, estrelas, planetas — e nós aqui, discutindo isso. Deve ter tanta coisa entre a tal explosão até a última seca do agreste que não conseguimos sequer alcançar.
Benjamin Franklin dizia que acreditar que o mundo não tem um criador é o mesmo que achar que um dicionário nasceu de uma explosão numa tipografia. Penso nisso quando olho para obras como A Divina Comédia, Dom Quixote, Dom Casmurro, O Auto da Compadecida. Não consigo imaginá-las como fruto do acaso. Explosão nenhuma escreve um livro desses. Há algo de divino neles.
Talvez esteja certo o Ariano, que via na inteligência humana algo que escapa à matemática, à biologia e às teorias bem organizadas. Também tenho dificuldade em acreditar que tudo isso — o cosmos, a consciência, a arte, a música, a palavra — seja fruto de um acidente bem-sucedido.
Alguma coisa aconteceu. Alguma faísca houve. Nem que tenha sido só para que a gente chegasse até aqui, capaz de pensar, criar, rir e contar histórias.
E talvez isso já seja milagre suficiente.
Ariano Veríssimo.